Crítica semanal Daniele Machado

Um projeto de país sem memória

No Brasil não falta orçamento público. Não existe investimento na educação e na cultura por falta de verba, mas por opção. Se trata de um projeto. Um projeto que isenta empresas, não taxa grandes fortunas, mas não valoriza os profissionais da educação e da cultura. Entre tantas questões graves, em específico:

Como fazer memória sem orçamento?

E ainda:

Que memória se faz sem orçamento?

A cartilha Caminhos para qualquer pesquisa ser feminista realizada pelo grupo de pesquisa De Sobre Feitas por mulheres traz dados que impressionam sobre o não investimento em uma pesquisa nacional não sexista, cito dois: 1) o acervo do Museu de Arte de São Paulo possui 6% de artistas mulheres, enquanto que 60% das obras tem como temática nus femininos; 2) O CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) destinou 100% das bolsas de produtividade em pesquisa entre 2005 e 2005 na categoria senior para homens. Em 2015, todas as categorias tinham mais de 60% das bolsas para homens.

Mudar o cenário dos acervos no Brasil, depende de orçamento para aquisição de obras. Preservar obras para que continuem sendo acessadas no futuro, depende de orçamento para sua preservação. Inserir essas obras na memória depende de pesquisa que depende de orçamento.  Sem orçamento, o que resta? Adquirir acervo por doação. Exibir acervos particulares por meio de comodato. Contar com o apoio possível da universidade para pesquisa sobre esses acervos. Preservar da forma que é possível sem estrutura, material e equipe necessária. Contar com voluntários. Quando saímos do ambiente instituições com acervo para instituições sem acervo temos exposições com trabalhos atuais, artistas vivos. Poucas mostras sobre conteúdos de autores mortos. Editais sem verba. Desejo por fazer, apesar de tudo. Eventualmente surpreendidos por incêndios. Não é estranho que a inserção de artistas que não tenham nascido em famílias ricas nas instituições de arte aconteça junto a arte contemporânea. Arte que se faz com qualquer material, entregue ao efêmero, sem grandes pretensões de sobrevivência. É a arte possível sem verba. As configurações tradicionais de memória a partir da arte contemporânea são remodeladas e ainda não é possível entender que configurações são essas.

Que memória se faz sem verba? A que sobrevive à revelia das mudanças de governo e de clima. A dos monumentos nas ruas sólidos demais para se abater com a mudança das estações do ano. A dos currículos escolares, que hoje atinge boa parte da população. A memória oficial que serve a legitimar as instituições que fazem a manutenção dos privilégios no país. Porém, há brechas. A avalanche de patrimônios imateriais como as Baianas de Acarajé e o Passinho. Todo acervo exposto mesmo sem as condições museológicas ideais. Todos os que resistem a fechar as portas e fazem esforços hercúleos por manter uma programação cultural diversa e de qualidade. Todos aqueles que burlam o currículo escolar e falam sobre as grandes revoltas do povo escravizado, sobre os quilombos, sobre os indígenas, sobre as mulheres e todos que enfrentaram uma sociedade para que hoje tenhamos uma vida um pouco menos desigual.

Memória se constrói. É um trabalho. Trabalho árduo, não gratuito. Gratuito na ambiguidade: nem é dada, nem se realiza sem verba. Por fim: quem paga, leva. É imprescindível o investimento público em pesquisa. Um país de pesquisas privadas serve aos interesses de quem patrocina a pesquisa e não aos do povo. Que tipo de pesquisa serve ao povo? Um exemplo:

UPP – A REDUÇÃO DA FAVELA A TRÊS LETRAS: UMA ANÁLISE DA POLÍTICA DE SEGURANÇA PÚBLICA DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO

Dissertação realizada por Marielle Franco. 105 dias sem ela e sem respostas.

Seu assassinato foi utilizado por alguns como argumento para reforçar a importância da intervenção militar realizada no estado do Rio de Janeiro que naquele momento completava um mês. Hoje temos quatro meses de intervenção. Uma pesquisa nesse caso identificaria os gastos com a intervenção realizada nas favelas em 2014 e os dados que justificaram tais gastos. Na intervenção atual o mesmo. Sem pesquisa, quem vive na cidade não vê nenhum benefício, apenas gastos.

Quando gritamos nas ruas os nomes dos nossos mortos seguidos das palavras PRESENTE, AGORA E SEMPRE é um gesto de fazer memória. Mas sem pesquisa, corremos o risco de esquecermos.

A falência do ensino público não é má administração das verbas, é a gestão correta no sentido da privatização do ensino, da perpetuação da subordinação, de sujeitos não questionadores, acostumados. Querem nos vencer no cansaço. Não cansaremos!

No dia do assassinato de Marielle, comemorávamos 104 anos do nascimento da escritora Carolina Maria de Jesus. Uma educação que empodera e burla o currículo tradicional teria O quarto do despejo (1960) como livro paradidático. Tive a sorte de ter uma professora que burlou e li na 4ª série esse livro. Que a força de Marielle, Carolina e tantas outras sirvam de inspiração para não desistirmos.

Sobre não desistir: enquanto escrevo, ouço tiros bem próximos, provavelmente na minha rua e não é uma metáfora…

 

dani

DANIELE MACHADO é Historiadora da Arte (UFRJ) e Mestranda em Estudos Contemporâneos das Artes (UFF) onde desenvolve a dissertação “Construtivismo Latino-Americano na Modernidade Periférica: Método Destrutivo, Ruína em Construção”. É Curadora do Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica e Diretora Geral da Revista Desvio.

 

 

 

 

 

 

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