Camila Vieira Crítica semanal

O sujeito oculto – Crítica à exposição Junho de 2013, 5 anos depois. Parte II

Em continuidade à crítica sobre os diálogos presentes na exposição Junho de 2013: 5 anos depois, aberta até dia 11 de agosto no Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica, notei que, por causa do aspecto inerente às manifestações, que é do da impessoalidade, muitas das pautas levantadas apresentavam caráter universalizante: mais educação, saúde, melhores salários, não-violência, ensejos com os quais grande parte dos brasileiros haveriam de concordar, mas que, contudo, destoavam daquela pauta inicial, o que reverberou para “ não é só pelos 0,20 centavos”. Lembro-me de um cartaz que viralizou:“ É tanta coisa errada que nem cabe aqui”, o prelúdio do desejo de uma mudança social que passaria, posteriormente, pela queda do governo, àquela época, representado pelo PT.

As vias públicas foram tomadas por pessoas de diversas matizes de pensamento, origem, cor e credo. Essa miscelânea de gente, cobertas ou não, anônimas em geral, pode ser lida na obra Esculturas Urgentes, 2013, de Guga Ferraz, que se apropria de uma construção tradicional, que é a escultura em madeira, para cobrir os rostos de alguns elementos, configurando-os um caráter anônimo, sob aquelas faces já construídas para o serem, pois se trata de uma representação social. À guisa do artesanato popular, as faces ali esculpidas encontram respaldo neste sem-número de rostos que formavam o marco de 2013.

Nas vias públicas, nos metrôs, nos bares, em todo o lugar, os agrupamentos tomavam forma na heterogeneidade verbal e ideológica daqueles que tomavam as ruas para expressar seus valores, angústias e desejos. Por isso é interessante pensar na escolha curatorial da obra que está sobre a mesa, que corta em duas vias a sala de entrada: um estudo formal, em escala, de pedregulhos retirados de vias públicas, pela artista Emília Estrada. Formações rochosas da Av. Rio Branco, 2015, do Pier Mauá, 2015 e da  Vila Autódromo, 2017, transformadas em uma escultura natural urbana, pois feitas não apenas pelo concreto, mas pelas lutas diárias materializadas na vida dos transeuntes que já pisaram nestes pedaços de cidade, hoje expostos num Centro Cultural, deslocados de sua função.

Pensando a respeito das histórias que marcam essas vias públicas, Philippe Valentim em Crônicas suburbanas, 2017-2018, nos apresenta o cotidiano carioca pelo olhar de quem mora longe do centro financeiro da cidade, transportando as fotografias do coletivo Seus Putos, Operação Lava Alerj, 2015 e Putas do Amanhã em Porto Maravilha Gentrifica, 2016, para o mesmo cenário de diversidade que perpassa o viver nas cidades. São Obras completamente diferentes, mas que revelam, segundo estética própria, modos de vida, de vestir e de conviver completamente alinhados à pluralidade de recortes presentes na exposição; recortes estes, discutidos nas tirinhas do artista Tavares, cujos aspectos sociais vão desde a ironia que perpassa alguns dos quadrinhos, como aquela na qual o Estado Democrático de Direito se apresenta como um fuzil, até rememoração das injustiças sociais, como no caso de Rafael Braga. São muitas as leituras possíveis, visto que se pode eleger apenas uma imagem destacada ou relacioná-la às outras, formando uma história, analogamente à vida dos sujeitos que, em conjunto, construíram um momento histórico no país.

Pensando em Murus, 2017, de Jéssica Kloosterman, que apresenta uma vídeo performance de mototaxistas portanto gaiolas na cabeça ao invés de capacetes, me pergunto, porém, qual foi a dimensão da mudança na vida daqueles que, por opção ou não, não estiveram presentes nas ruas. Penso na gaiola-mental que ultrapassa o desejo, transbordando a necessidade, na rotina diária da sobrevivência acima de qualquer custo, dos muitos que não foram manifestar porque não podem parar para viver, nem por 0,20 centavos, nem para enferrujar um mecanismo criado para manter a classe trabalhadora exatamente no lugar que ela ocupa: o da alienação[1].

[1] O sentido de alienação que proponho é o da alienação dos meios de produção, proposta por Karl Marx.

 

camila

CAMILA VIEIRA é formada em Arte: História, Crítica e Curadoria, pela PUC SP, e atua como arte-educadora em instituições culturais. Realiza pesquisas acerca da educação não-formal e de processos curatoriais inclusivos. É autora do livro “A crise da Arte segundo Mário Pedrosa”.

 

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