Carolina Lopes Crítica semanal

Com sentida esperança

um desejo de escrita. seguindo a um exercício primário, meu primeiro texto se construiu a partir de um trabalho da adrianna eu, artista contemporânea carioca. para o texto da semana, havia pensado em escrever sobre sua obra. lembrei-me deste texto e, natural às coisas primeiras, a satisfação do momento logo passa e dá lugar à antipatia por aquela produção. a crítica de si ganha vida. pensei então no segundo olhar de joão moreira salles, sobre seu documentário santiago, e no que por fim se tornou: um documentário sobre o documentário que, só assim pode fazer justiça à beleza e força de seu personagem. segue aqui o texto original, deixando a promessa de um novo texto que, assim como o gesto de moreira salles, fale melhor sobre a obra desta artista, cujo trabalho é capaz de atravessar, com força semelhante a de santiago. com o tempo vem.

Através das Aléias do Jardim Botânico, que se mantém potente em sua capacidade de conduzir qualquer visitante a um estado de graça, embora já conhecida por mim, sua exuberância revela desde de longe a estufa desativada. Algumas janelas desvidraçadas. Dentro, um vermelho intenso acortina o lugar. Era Pesca Seca, de Adrianna Eu, ocupando de maneira  vibrátil e eminente o espaço, aparentemente há tanto inutilizado.

Acertadamente pensado para o local que ocupa, o trabalho de Adrianna não poderia ter encontrado melhor pousada. Para o alcance da estufa, em meio às aléias, um portal de Trombetas (flores conhecidas, além de sua beleza, por produzirem chás alucinógenos) emoldura a pequena ponte que leva à estufa, adornando  romântica e oniricamente o trabalho que se vê de fora. Quase como uma moldura ou uma cortina teatral, que se levanta apontando o trabalho em anima que acontece ali adiante.

Dentro da estrutura da então desativada estufa para plantas, que outrora abrigava o calor que trabalhava em favor da vida que ali crescia, o trabalho está no já conhecido vermelho de Adrianna, animando o local, tentando ali sua interação com o outro, também já familiar. São  numerosos fios de lã que, em forma circular, se alongam desde o teto da estrutura e precipitam até o fundo do chafariz que se encontra no meio do local, desvelando  a investida da pesca, permeando certa impressão de sonho, o olhar para dentro dali. Aquela experiência que se tem no tempo/espaço do sonho e que no processo do acordar permanece  uma atmosfera, uma visualidade estranha e confusa, com a qual se tenta dialogar com a realidade do estado de despertamento. Percebi-me conversando com o trabalho, procurando argumentos e significados como quando acordo e, por graça da memória, posso lembrar do sonho que tive; e tentando fazê-lo permanecer comigo, procuro encaixá-lo nos signos da consciência. Embora completamente absorta nessa rota de pensamentos, como quem é sacudido, percebo nas linhas vermelhas e trêmulas dos fios de lã, a textura do que é real.

Não me parece uma via estranha relacionar o trabalho com a atmosfera do inconsciente, já que nele frequentemente manifestamos com ímpeto e desembaraço detalhes importantes sobre o sítio da consciência. Curioso pensar nas influências que Adrianna abraçou em sua trajetória enquanto artista. Especialmente na força que Louise Bourgeois exerceu sobre seu imaginário, a partir da identificação do assunto apaixonado e visceral do trabalho de ambas, aspectos também encontrados na obra de Frida Kahlo, por exemplo, através de sua estética intensa e onírica, motivo pelo qual fora tomada por parte do grupo dos surrealistas, estando presente por pura subjetividade, mais do que qualquer expressão da inconsciência

Desde a provocação causada por seu nome, Eu, é inevitável ler os trabalhos de Adrianna de uma maneira muito pessoal. O convite para a íntima conversa que Pesca Seca faz àquele que se aproxima e dá ouvidos, torna a recusa absolutamente improvável. Bem como quem partilha de forma pura e singela suas particularidades e aguarda reciprocidade no trato da conversa, as linhas se lançam do teto, buscando alcançar o fundo da fonte, presentemente seca, expondo aí sua esperança infinda, insistente. Não por ignorância, mas pelo desejo de ultrapassar para o alcançar do outro. A mim pareceu apropriado analogar esta atmosfera toda elevada a favor da qualidade da vida de dentro, ao eu, você, pessoa. Não obstante, troquei com Pesca Seca, neste diálogo, investigando em mim as possibilidades de reconhecimento de tal insistência, de tal fé. Assim como no com-sentimento do amigo de Agamben, em que na sensação do ser, no sentir-se existir, há a possibilidade do com-sentir a existência do amigo na existência própria, ambos são faces não idênticas de uma mesma coexistência, uma partilha se dá neste câmbio de exteriorização.

A instalação de Adrianna Eu foi apresentada na 2ª Bienal Tridimensional, chamada Vestir o Mundo. E como tal, propunha, ali pelas vias do Jardim, a conjugação do trabalho e a natureza corpulenta presentes. Não raro, ao passo que o trabalho de Adrianna confere certa fragilidade, por conta de sua delicadeza, também se faz positivamente vulnerável às peculiaridades daquele espaço natural. As linhas, quando envolvidas por uma corrente de vento, se deixam dançar ao ritmo proposto. A despeito do mormaço palpável ao redor, era possível experimentar a percepção de frescor somente no ato de observar aquele bailado.

 

CAROLINA LOPES

CAROLINA LOPES, 32 anos, estuda História da Arte na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Fotógrafa e designer, também trabalhou como bolsista do professor Marcelo Campos na Casa França-Brasil, onde esteve mais perto das práticas curatoriais e artísticas. Nascida e criada em São Gonçalo, teve acesso tardio aos museus, cinemas, e espaços culturais; tendo sido completamente envolvida pelo universo da arte desde o primeiro contato

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