Crítica semanal Mayã Fernandes

Brasília: obra-prima da alucinação

Brasília, metrópole pensada por um demiurgo que errou a mão e trocou sementes por grãos de areia. Cidade concreto, instalações a céu aberto performam a rigidez da estrutura social do país.

O céu arquitetado milimetricamente compactua com a estagnação da vida pública. Será que Lúcio Costa arquitetaria o cristalizado azul e as nuvens condensadas feito fotografia? Urbanizado, o Planalto Central beira a perfeição. Avenidas numetrificadas indicam a racionalidade gritando ordem e progresso. Os ministérios enfileirados reverenciam o poder que dissimulado finge ser do povo. A Esplanada verde engana, e a falsa sensação de acolhimento da natureza se desfaz com o sol do meio-dia.

O céu – mimético – permanece imóvel, um cartão postal da ilha dos lotófagos, que impede a fuga. A alucinação teve início na profecia. As coordenadas foram retiradas de um sonho que parecia realidade: Dom Bosco, o pensador da ilusão. Assim, com nanquim traçou a primeira asa do avião.  Imóvel, permanece gravado. Em tela, o mapa revela uma erva daninha no cerrado.

As ruas desertas transformam humanos em calangos, candangos, brasilienses. “Em Brasília não se vive, se mora”, Clarice estava certa, a artificialidade está presente até mesmo nas mudas que viraram grandes árvores, quase plásticas. O calor ­- substância tóxica que emana do asfalto – não é suficiente para aquecer o peito.  Na seca, ficam sedentos por amor, transformando-se em deserto.  Aqui, o grafite incomoda, há a lei do silêncio e as entrequadras se projetam, enganando os desavisados.

A estabilidade mata o subjetivo. O equilíbrio alicia e convence almas cansadas, estagnadas como as paredes do congresso, a plataforma da rodoviária e o asfalto do eixão. Brasília é isto: um corpo sem alma. Uma obra-prima da obscenidade, da injustiça feita em linhas retas: as vozes desorganizam, as árvores reivindicam rupturas, crescem e rompem os jardins enfileirados. E até mesmo o concreto nas águas de março abre espaço para a terra.

Aqui, nada mais é eterno e o asfalto corrido que simbolizava o futuro desistiu de tentar ser o que a artificialidade queria.

Brasília ruiu. Nunca mais será a mesma.

 

maya


MAYÃ FERNANDES
é formada em Filosofia pela UnB e atualmente é mestranda em Metafísica pela mesma instituição. É pesquisadora da Cátedra UNESCO Archai: Origens do pensamento Ocidental e editora da PHAINE: Revista de Estudos Sobre Antiguidade. Estuda a teoria do belo na antiguidade e escreve crítica de arte no site Linhas de fuga.

5 comentários

  1. Maya é bem o desabafo poético de tudo que nós, brasilienses sentimos sobre o que poderia ser e em que se transformou. Como já dizia Érico Verissimo em Olhai os Lírios do Campo “de que adianta construir arranhaceus se já não existem Almas humanas para habita-los?” . Lindo! Amo tudo em você e até sua rebeldia !!! Parabéns

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