Candé Crítica semanal

Notas sobre Arte Negra Contemporânea: Negritude.

Vamos lá: rolou a 13ª Edição da Bienal de Arte de Dakar agora em 2018. Seu curador, Simon Njami, já emplaca o tema “A Hora Vermelha” baseado na poesia de Aimé Césaire. “A Hora Vermelha” é um dos delírios poéticos de Aimé. Um lirismo de pitada surrealista onde a violência racial ganha corpo e voz. Desta corporificação, uma das faces do trabalho de Aimé (de leitura obrigatória!), que Norteia a Dakar Art 2018. Njami é daqueles curadores artistas, tem filmes importantes no currículo (The President, 2013), assim como biografias e exposições. Cada vez mais curadores se tornam especialistas em criar linguagens visuais, um domínio da arte como linguagem como forma de conectar diferentes trabalhos. Njami é um dos nomes mais influentes na Arte Africana Contemporânea. O impacto da turnê (sim, turnê) com a exposição “Africa Remix” permitiu um novo olhar pra Arte Africana assim como a Arte Negra como um todo. E nada disso ficou de fora, ele jogou este repertório pesado nesta Bienal.

I am the red hour, the red unknotted hour” – Les Armes Miraculeuses”, 1946.

 

Optar por Aimé reifica o internacionalismo negro de Njami. Aimé Césaire nasceu na Martinica, aqui na América Central, estudou na França (local onde Njami mora ainda hoje), publicou poemas, livros e artigos fundamentais pra nova Renascença Negra Mundial iniciada no início do século XX com o fim da escravidão internacional e os subsequentes movimentos de independência colonial africana. Teve a contribuição de inúmeros intelectuais – um marco do movimento é a entrada de negros africanos e diaspóricos nas universidades. Não pode ser pensada sem o trabalho de outro senegalês, Cheikh Anta Diop, que cria o conceito de Renascença Africana, outro marco pra produção da Arte Negra Contemporânea. No início do século XX que Aimé publica seus primeiros poemas no jornal “O Estudante Negro” onde apresenta sua vivência com o termo Negritude.

Negritude é neologismo. Aimé se apropria do francês, língua imposta pelos colonizadores, e altera significados. Negro, em tradução direta pro francês, é nègre ou noir. Noir é relacionado a cor negra e ao escuro enquanto nègre, também relacionado ao preto, foi historicamente usado pra denominar pessoas negras de forma pejorativa desde períodos coloniais. Aimé se apropria do xingamento e desenvolve uma nova atitude. Primeiro ele entende que todo acesso a sua condição foi mediada por invasões em sua cultura: das violências coletivas infligidas aos corpos negros à abstração de nossa própria cultura e linguagem. Segundo que o movimento da Negritude é o movimento dos oprimidos onde nossos meios de autoconhecimento são estes através de uma sociedade de abusos. Em terceiro vem a força de vida, o orgulho de si, as inversões criativas que deformam os mecanismos de violência produzindo novas imagens possíveis.

Impossível estar na academia francesa do início do século XX sem ser influenciado pelos debates da Ciência Moderna. Por muito tempo Aimé entendeu Negritude como um movimento organicamente político (muitos até hoje…) onde as pessoas negras estariam entre a classe trabalhadora oprimida lutando por autodeterminação. As discordâncias ao pensamento de Aimé vieram já de dentro do próprio jornal “O Estudante Negro“. A tensão em definir Negritude passa pelo carácter de Vivência que ela possui (veja mais no artigo “Notas sobre Arte Negra Contemporânea: Vivência”). O debate ideológico da Ciência Moderna ainda não abrigava a complexidade da experiência negra. Experiências quebram ideologias. Teorias racistas, conceitos misóginos, xenofobia – Negritude é a força de imposição de agenda política, estética e social produzidas por pessoas negras. Pessoas negras que só podem partir de um ponto em comum: o mundo pós-colonizado. Pessoas negras desviantes dos meios normativos: ora porque a norma cria muros, ora porque o desvio é o único meio. É como os Rappers estadunidenses se apropriando do termo Nigger. É quando dizemos no Brasil que fazer pretice é fazer coisa boa.

Quando aprendemos pela Vivência, aprendemos com o corpo inteiro, de forma inesquecível, porque é algo de significado próprio, avança a dimensão da racionalidade e permite que a ação cotidiana se transforme. Não tem volta. Não se apaga Vivência, como se apagam ideias, ideologias, explicações, histórias. A Vivência guarda no corpo eternamente. Claro, são sempre móveis, mutáveis… referências. Referências de corpos negros no mundo pós-colonialista é a Negritude. Uma forma de existir possível, em todo êxtase, louvando a própria existência. Existência inteira destes corpos, acolhendo todas as faces e o indizível desse cotidiano.

Artistas negros produzem sobre o que quiserem. Nem se quer precisam adentrar a temática da Negritude. Mesmo que a vivencie todos os dias. Assim como qualquer artista pode se debruçar sobre qualquer tema. Porém, à Arte Negra Contemporânea, não basta ser negro ou negra, Negritude é fundamental.

 

CANDÉ COSTA

CANDÉ é estudante de História da Arte e carioca da Zona Norte da cidade. Filho da Babilônia, transita por vários movimentos urbanos contemporâneos. Artista visual, curador da @Africanizze, coordenador do afoxé 2.0 da UFRJ e mochileiro old school.
Instagram @Africanizze | Facebook – Candé Costa http://www.cargocollective.com/candecosta

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