Crítica semanal Daniele Machado

Curadoria de Guerrilha e as perguntas em torno de Junho de 2013 (parte II) ou Em Cuba só três coisas funcionam

Do dia  26 a 30 de junho ocorreu uma parte fundamental do projeto Junho de 2013: cinco anos depois. Um seminário que convidou pessoas para estar lado a lado conversando sobre o antes, o durante e o depois de 2013, em especial na cidade do Rio de Janeiro. Esse período intenso do ato de ir as ruas com punhos para o alto e gritos exigentes e afirmativos sobre outras formas de fazer política, um pouco utópicas considerando o sistema capitalista.

Essa semana o “jornalista” Ricardo Amorim proferiu um complexo e curioso comentário acerca do pequeno grande polêmico país cubano:

_ Em Cuba só tem três coisas que funcionam: segurança, educação e saúde

Cuba, o país que vive desde a Revolução em 1959 uma ditadura, só tem três coisas. Nós no Brasil, não vivemos uma ditadura e fomos às ruas em 2013, com reivindicações diversas, mas que podem se resumir ao trio segurança, educação e saúde. Uma ditadura não vale ter esse trio. Por sorte nós no Brasil não vivemos um ditadura. Os militares não liberam o acesso da população aos arquivos da ditadura de 1964; A lei da Anistia não é revista para punir quem cometeu crimes contra a população em nome do Estado; A nudez na arte em pleno 2018 é censurada, mas não vivemos uma ditadura. A cantora Elza Soares foi impedida de realizar um show do seu novo CD em que há a música Exu nas escolas; Projetos de arte que ferem a “consciência cristã” são vetados na rede municipal de cultural do Rio de Janeiro; Temos um general como ministro da defesa, um coronel na presidência da CBF, um interventor no estado do RJ; Tivemos em 2014 um decreto pela Garantia da Lei e da Ordem, onde militares foram autorizados a atuar com poder de polícia; Também nesse ano as forças armadas foram autorizadas a realizar uma intervenção nas favelas do RJ; Hoje pode ser aprovado na câmara o projeto de lei Escola sem Partido contra a “doutrinação nas escolas”.

UFA! Não vivemos uma ditadura. Graças a deus.

Enquanto isso, nas investigações sobre avaliações em torno de 2013, fica aqui registrada uma conversa que ocorreu no seminário. Perguntava a mesa composta por Leci Carvalho e Jorge Vasconcelos sobre a importância da internet na dinâmica da ocupação das ruas e o sentimento de derrota pelas poucas perspectivas de vitória concretizada em atos. Leci respondeu fazendo uma longa retrospectiva a sua atuação no movimento secundarista nos anos 1980 reivindicando o passe livre para estudantes, quando a pauta sobre a educação não era melhores condições de estudo e ensino, mas de escola para todos, quando para conseguir uma matrícula era necessário travar uma batalha contra o cansaço de filas longas que duravam dias. Dos anos 1980 voou para 2013, abordando a geração que tinha por volta de 12 anos em 2003 quando o Brasil passou a ter índices menos piores de condições de vida para a população e que em 2013 tinha vinte e poucos anos. Idade da maior parte dos que estavam nas ruas. Estes que não viveram grandes crises até 2013, foram as ruas por pouco “20 centavos”, simbólico e muito diante da vida que levaram e que se lembravam até então. Se 2013 teve uma vitória? Essa geração que descobriu o estar nas ruas. Leci concluiu assim:

_ Mais vale um dia vivendo uma manifestação nas ruas, que dias sentado em uma sala de aula. E digo isso sendo professora.

As janelas abertas para a rua na exposição Junho de 2013: cinco anos depois é sobre isso. Entre as foices do mobiliário do Atelier Sanitário, os figurinos carnavalescos de protesto de Leandro Vieira, os casos de censura da pesquisa do projeto, as crônicas suburbanas de Philippe Valentim, as bucetas protagonistas de Beatriz Lohana, os posts manipuladores do real de Aleta Valente, a bandeira vibrante de Cecília Cipriano, os monumentos públicos performados do coletivo M.I.A, a carta-depoimento de Graziela Kunsch, os carimbos vãos de Carine Caz e a utopia armada latino-americana de Cyanogaster Noctivaga, temos também a rua na expografia, assinada por todos.

Obs: Em Cuba, onde a saúde funciona como bem observou o “jornalista” Ricardo Amorin, o aborto é legalizado desde MIL NOVECENTOS E SESSENTA E CINCO!

 

dani

 

DANIELE MACHADO é Historiadora da Arte (UFRJ) e Mestranda em Estudos Contemporâneos das Artes (UFF) onde desenvolve a dissertação “Construtivismo Latino-Americano na Modernidade Periférica: Método Destrutivo, Ruína em Construção”. É Curadora do Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica e Diretora Geral da Revista Desvio.

 

um comentário

  1. Meio irônico uma artista, que vive da liberdade de expressão, ironizando o fato de não vivermos em uma ditadura e não termos essas três coisas. Numa democracia, é realmente difícil vencer o cabo de guerra de grupos de interesses, então é realmente difícil conquistar qualquer coisa.
    Cuba funciona com ressalvas. A medicina é defasada, o tratamento fia-se no preventivo porque o país não tem estrutura para tratamentos de alta complexidade (não a toa Fidel, que o diabo o tenha, foi tentar se salvar na Espanha).
    Enfim.
    Toda a América Latina quer ser Chile, bem de vida, democrática e funcional, mas ninguém quer Pinochet.

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