Crítica semanal Ludimilla Fonseca

Deserto da arte – O lugar onde ninguém vai

Como a grande maioria da população brasileira, nasci numa cidade sem museu. Sem museu, nem instituição cultural, sem cinema, sem teatro, sem sala de espetáculo, sem centro de documentação ou arquivo público. Tinha igreja e tinha bar. Tinha a escola e a pracinha. Mas museu não tinha. Tipo a música da casa: era muito engraçada, não tinha nada.

Segundo dados do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram/2015), quase 80% das cidades do Brasil não têm museu (ou 4.272 dos 5.570 municípios brasileiros). Os dados foram coletados através do site do Cadastro Nacional de Museus (CNM), sistema do Ibram que mapeia e cataloga as instituições do país. Toda instituição sem fins lucrativos e de natureza cultural, que conserva e expõe ao público para fins de preservação estudos, coleções de valor histórico, artístico ou científico e bens de contemplação e turismo, pode ser cadastrada no sistema.

É importante considerar que alguns museus mapeados estão fechados para reformas ou “em implantação” (ou desativados mesmo). Sobretudo, após o (des)governo Temer e o desmantelamento do MinC, o número de instituições e programas encerrados há de ser revisto.

Não há um parâmetro internacional de distribuição de museus em países ou cidades, mas obviamente o percentual brasileiro é negativo. Possuir espaços culturais é um dos fatores indispensáveis para a construção da identidade, do fortalecimento do pertencimento das pessoas ao local. A ideia de museu é amplamente estereotipada e precisa ser atualizada. Os museus são vivos e existem devido à relação das pessoas com o meio, estabelecendo pontes entre o passado e o presente, entre arte e educação. Eles contribuem para democratizar a cultura e para integrar populações, pois oferecem aos cidadãos acesso a bens e serviços culturais. Que, não vamos esquecer, são seus direitos fundamentais.

Não bastasse a ausência de aparato cultural, as instituições que existem (ou melhor, sobrevivem), muitas vezes, sofrem com o despreparo administrativo. O patrimônio precisa ser cuidado por pessoas que têm formação e que entendem disso. Mas uma há desinformação generalizada de que o trabalho pode ser feito por qualquer pessoa. Também não há recursos financeiros (?). Com certeza, não há políticas públicas para a cultura no Brasil. Vale ressaltar que “política pública” é diferente de leis de incentivo, de programas de edital, de ações pontuais. E são raríssimas as políticas que duram mais que a gestão que as criaram.

No dilema entre cuidar das instituições que já existem e abrir novas unidades, parece ser mais importante discutir se tem gente nua dentro do museu e se as obras e performances ofendem a dignidade da família tradicional brasileira que – vejam só, não frequenta museus. Aliás, quem frequenta a arte neste país? Um estudo (muito defasado) do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) divulgou que, em 2010, cerca de 70% da população brasileira nunca tinha ido a museus ou a centros culturais e pouco mais da metade nunca vai a cinemas.

Atualmente, as questões sobre a relação entre demanda cultural e inserção da cultura na sociedade contemporânea envolvem, necessariamente, os museus e seu entendimento como ambientes que possibilitam intensa interação social, que fazem parte da grande rede de instâncias culturais que trazem benefícios para a melhoria de vida de indivíduos e grupos. O museu, hoje, é um espaço público produtor e reformulador de conhecimento e tem ampliado a sua missão através de investimentos em ações focadas na educação e na mediação cultural, bem como no compromisso com a popularização de saberes e a inclusão das diversidades. Sendo assim, é imprescindível que o acesso seja discutido.

No vazio institucional que configurava a paisagem cultural desértica da minha cidade, cresci querendo ir embora. Hoje sei que demorei muito tempo para descobrir que o museu é o mundo.

Eugenia Loli Collage - Natural History Museum2

Crédito da imagem:  Eugenia Loli Collage – Natural History Museum.

 

ludmilla

LUDIMILLA FONSECA é comunicóloga e jornalista formada pela Universidade Federal de Juiz de Fora (MG). Paralelamente, trabalha como curadora e produtora independente de projetos artísticos. Mineira, atualmente, reside no Rio de Janeiro, se dedicando aos estudos curatoriais e de história da arte. Especializada em storytelling, suas principais áreas de interesse são: arte contemporânea brasileira, semiótica e cinema

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