Camila Vieira Crítica semanal

Dois tipos de rótulos Crítica à exposição Junho de 2013: 5 anos depois. Parte III

A terceira parte da minha crítica à exposição Junho de 2013: 5 anos depois, começa por um presságio do artista Ivan Grilo, feito na porta de entrada da exposição, uma placa de bronze, à parede, anunciando que Amanhã vai ser maior, 2016.  Dizeres que me lembraram dos momentos nos quais as passeatas eram marcadas para o dia ou a semana seguinte, sempre com a promessa de que o número de pessoas iria aumentar e que o movimento ganharia a força que, de fato, ganhou. Milhões de pessoas tomaram as ruas das principais capitais do país, urdindo as mudanças estruturais que aconteceriam ao longo dos anos posteriores. Não por um acaso, ao adentrar a exposição, ao lado direito da porta, temos o Kit manifesto Feliz, 2013, obra que apresenta muitas camadas de interpretação, para além do óbvio, que é se tratar de um kit de sobrevivência, essencialmente feito para manifestações progressistas, uma vez que são elas os alvos preferenciais do braço armado do Estado.

A obra faz alusão ao Mac Lanche Feliz, combinado alimentício de duvidosa qualidade, criado excepcionalmente para fidelizar, desde criança, os clientes em potencial do MacDonald’s. Poucos sabem, mas a rede de Fast-Food mantém propriedades particulares em 119 países, num tipo de colonização que faria Napoleão Bonaparte morrer de inveja. Além de deter terras fora do solo norte americano, a Rede apaga a cultura nativa para criar uma dependência mercadológica, tanto do ponto de vista culinário quanto simbólico, uma vez que dissemina personagens da Disney e da Pixar como “brindes” de uma relação globalizante calcada pela desigualdade. Ao invés de hambúrgueres, contudo, as caixinhas do coletivo Vô Pixa Pelada, espalhadas ao canto direito da sala, contém um adesivo de Granada, à guisa de um logotipo e, segundo a descrição do verbete, abrigariam em seu interior uma máscara protetora e vinagre. Uma ótima maneira de retratar o colonialismo invisível e a opressão que o Capital exerce nos países em desenvolvimento, seja pelo sequestro da identidade cultural nativa, por uma empresa estrangeira, ou pela violência militar.

A instalação sonora de Pablo Meijueiro consiste em músicas que aludem a uma revolta cotidiana, a essa verdade escondida pelas grandes mídias, que são as relações institucionais e a vida do trabalhador. O som se espalha por todo o circuito da exposição, com mais força na segunda sala, o que me fez pensar: Quantas manifestações individuais couberam em 2013? A obra Homo Partido, 2018, de Carine Caz e Isabelle Cesário, me fez refletir sobre os rótulos destinados estes sujeitos únicos e, por se tratarem de cápsulas, todas semelhantes, é possível pensar sobre analgésicos ou soluções remediadas, imaginárias ou não, criadas pela sociedade para padronizar estes indivíduos, hegemonicamente.

 Apesar das dessemelhanças e dos rótulos que regem a vida dentro do corpo social, o ponto em comum aos manifestantes de 2013 foi o descontentamento com a lógica do bem estar, do trabalho, do transporte, da educação e saúde como mercadoria. Aludindo a isso, a obra O único que se libertou com a revolução industrial foi o cavalo, 2018, de Gustavo Speridião, joga com a construção simbólica que envolve a conhecida  figura que ilustra a marginália “ Seja marginal, seja herói”, de Hélio Oiticica e a frase de Carlos Zílio, que indica uma realidade na qual a única liberdade verdadeira no capitalismo é a liberdade para consumir, a partir da submissão do trabalhador ao Sistema.

Copiada e rotacionada, de modo a aparentar que este “sujeito marginal” estivesse sendo arrastado por dois policiais,- idênticos a ele, de fuzis nas mãos-, a figura captada por Oiticica foi apropriada numa obra autorreferente, pois se trata do “roubo” de uma  imagem e de uma frase, para criação de um novo contexto, cujos elementos transcendem de seus pontos iniciais para configurar uma crítica sobre a desigualdade social enquanto motor da criminalidade, fomentada por uma estrutura de acumulação de riquezas e  má distribuição de renda. Toda a base de dominação que as relações mercadológicas mediadas pelo dinheiro impõem, transbordam neste conflito das classes, assumindo  como campo de batalha o discurso público, assunto sobre o qual tratarei no meu último texto sobre a exposição, na semana que vem.

 

camila

CAMILA VIEIRA é formada em Arte: História, Crítica e Curadoria, pela PUC SP, e atua como arte-educadora em instituições culturais. Realiza pesquisas acerca da educação não-formal e de processos curatoriais inclusivos. É autora do livro “A crise da Arte segundo Mário Pedrosa”.

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