Carolina Lopes Crítica semanal

volte para casa

era o dia seguinte a morte de marielle franco, ativista e militante pelos direitos humanos, e marchávamos ali, na primeiro de março. nessa atmosfera de luto e revolta pela morte em si, por como, por quem e por que; por marielle ser mulher, ser lésbica e ser preta;  é que cheguei ao centro cultural banco do brasil para ver ex áfrica.

curioso foi entrar nesse lugar que geralmente é relaxante , normalmente está cheio, cheio de espaço, cheio de gente espalhada por ele; e naquele momento a ocupação de ex-áfrica já estava presente logo ali no térreo. uma obra monolítica, edificada com caixotes de madeira, mal estruturados, sujos de graxa, com objetos saindo por todas as partes, era paraíso perdido não orientável de ibrahim mahama. ia do teto ao chão, colocando-se evidente. grande. forte. feio. incômodo. pareceu muito pertinente o nome da obra, a sensação de desconforto imediato aquela construção imensa impedindo o respiro desejado, impedindo o alívio da visão, que geralmente é possível dentro deste lugar. de alguma maneira, tornou-se perceptível uma sensibilidade pedindo por voz, um vislumbre de ex africa.

pareceu-me completamente conexa a exposição, apesar de dividida em núcleos, e ouvia-se em uníssono a voz que ali era atendida. certo tom silencioso sussurrava ao início e a medida em que avança, logo o som desta voz acorda, e em acordo envolve na reflexão que se dá ali, o povo negro olhando para si mesmo e para sua história, olhando para o presente e falando por si. alto ouve-se essa voz, que muito conta sobre a maior tragédia que a humanidade já viveu, e sofre dela até hoje: a escravidão e o racismo. acredito inclusive, ser impossível a tomada de uma via diferente desta que vi ali, diante de tal peso histórico, e da abertura tardia dos lugares de fala ao povo negro. ela estava presente, a história. não se tratava de acerto de contas mas talvez uma requisição da dignidade do corpo negro na imagem, antes absurdamente explorada, como meios científicos, antropológicos, comerciais. eram usurpados de subjetividade e agora, retornam ao lugar de origem, ao corpo de origem. carregados de si e de suas raízes.

não houve momento em que, penetrando mais profundamente a exposição, não fosse transpassada pelo peso daquele dia. o lugar está cheio dos gritos negros de reclame. esse lugar que, no início, estava entre dois portos onde desembarcavam negros escravizados. ouvi todo o tempo esse clamor. é de arrepiar-se.

talvez houvesse ali certo ritual, um movimento em direção a cura. em “hilário”, vídeo de nástio mosquito, há algo de um transe, em que o homem negro está nu, e num movimento de retrocesso, revela o real início em que,  vestido de terno, em movimentos espasmódicos, um certo desespero, iniciam-se no momento de levante do ator, e dão lugar enfim a um fechar de olhos mais tranquilos. o refrão da música diz “volte para casa”.

 

CAROLINA LOPES

CAROLINA LOPES, 32 anos, estuda História da Arte na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Fotógrafa e designer, também trabalhou como bolsista do professor Marcelo Campos na Casa França-Brasil, onde esteve mais perto das práticas curatoriais e artísticas. Nascida e criada em São Gonçalo, teve acesso tardio aos museus, cinemas, e espaços culturais; tendo sido completamente envolvida pelo universo da arte desde o primeiro contato

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