Candé Crítica semanal

O Mito do Gênio

Van Gogh era um alcoólatra esquizofrênico que cortou a orelha porque foi rejeitado por uma prostituta e depois se matou. Não tem como saber das intenções nem trocando uma ideia com o Goghuinho, falecido faz tempo. Sabe-se que teve uma vida meio miserável e a arte, velha sádica, gosta de histórias coloridas. Como se a vida de tortura permitisse algo de bom, como criar visionariamente – o que é de um estoicismo romantiqueiro extremo. Como se o sofrimento dele fosse o preço por suas criações: “Van Gogh – o artista atormentado e magnífico que não cabia em si”.

Não sei vocês, mas bêbado decadente com problemas com putas, drogas e potencial suicida resume cerca de 30% dos homens que conheço. Do meu tio, passando pelo vizinho, colegas de trabalho… Eu também me impressiono como meu vizinho consegue ir trabalhar todos os dias com aquele volume imenso de álcool no sangue. Não chego a chamá-lo de gênio por isso.

O Gênio é imagem de um taumaturgo, um operador de milagres. Aquele que faz o que ninguém faz de forma original, própria. O problema é que nada no gênio é real. O real é humano demais pra comportar “tamanha visão”. Assim, a magia do gênio depende mais da plateia e do potencial dele de impressioná-la.

Esse pensamento romântico sobre arte é neoplatônico. Ninguém aguenta mais. A arte é o que é pela sua capacidade de influênciar. Religião e política sempre legitimaram este seu poder. Da santa que não pode cair que dá azar ao bloco de afoxé que não pode deixar de passar todo ano – a arte gera emoções incompreensíveis. Um fenômeno visual, do domínio da cultura. O que vimos e sentimos nos impacta pra além da razão. Mas não podemos dizer o mesmo dos profissionais de publicidade hoje? Que seu negócio não é impactar pra além da razão? Fazer-nos gastar 16 mil em um sapato? Desde sempre Da Vinci era um profissional contratado pra trabalhos. Como se fosse o criador da identidade visual pra um projeto de sociedade? Da Vinci – o Marketeiro feroz.

A “musa invisível” que inspira artistas nada tem a ver com seres imateriais. Criatividade é técnica, é método. Um trabalho. Como arquitetos projetam cômodos, designers cadeiras e publicitários campanhas, artistas fazem obras de arte. Sem romance, sem a crença que artista inspirado é guiado pelo indizível, arte são anos de absorção de conteúdo, sistematização e produção de formas. A maior parte do tempo são erros, aprimoramentos e contas vencidas.

Artistas apenas tem um trabalho especializado. Também acho que técnicos em TI são gênios por fazerem o que não sei. Porque genialidade só não é mito quando é apenas um referencial.

Não, Van Gogh não foi um megazord.

 

 

CANDÉ COSTA

 

CANDÉ é estudante de História da Arte e carioca da Zona Norte da cidade. Filho da Babilônia, transita por vários movimentos urbanos contemporâneos. Artista visual, curador da @Africanizze, coordenador do afoxé 2.0 da UFRJ e mochileiro old school.
Instagram @Africanizze | Facebook – Candé Costa http://www.cargocollective.com/candecosta

3 comentários

  1. O texto ficaria melhor se definisse seu propósito. Além disso, seria importante q pudéssemos ter um conteúdo compatível com um conhecimento mais sólido não só sobre a biografia de Van Gogh, como tb da crítica fundada sobre movimentos artísticos e históricos pertinentes.

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