Crítica semanal Daniele Machado

Auto-censura

A exposição Junho de 2013: cinco anos depois contem uma linha do tempo da censura em construção. Atualmente reúne episódios que ocorreram no país e, especialmente, na cidade do Rio de Janeiro a partir de 2006, mas que nos últimos 2 anos se intensificaram. Oficialmente temos no Estatuto da Criança e do Adolescente uma orientação sobre como regular institucionalmente o acesso desse público a determinados conteúdos de acordo com as suas características (nudez, cenas de drogas, sexo, violência, etc), mas os responsáveis pela criança ou adolescente teriam autonomia para decidir se tal conteúdo poderá ou não ser assistido. Oficialmente é o mais próximo que temos de censura. Apenas oficialmente.

No dia a dia temos censura de todo lado. De todo o lado. Direita, esquerda, frente, costas, em cima, embaixo. Abrir a boca tem sido um risco. Como não há nenhuma lei oficialmente, segue-se a auto-censura: estado de permanente medo em que antes de qualquer ação se pensa em todas as possibilidades imagináveis de censura e prefere-se não fazer nada, ou fazer apenas parcialmente por medo da repressão. Qualquer ação que envolva política panfletária e/ou símbolos religiosos e/ou crianças e/ou nudez será repensada, realocada, reposicionada, questionada ou mesmo suspensa sem mesmo chegar a exibir. Melhor que fique mais escondido… corre-se menos risco. Para os corajosos (meus mais sinceros parabéns a esses, infelizmente eu dependo do meu  emprego) apenas será aguardada a repercussão.

Na exposição, decidimos nos auto-censura sobre os quatro cartazes de Pablo Meijueiro. Em sua pesquisa sobre cartazes políticos no mundo, realizou uma série (de onde saíram esses quatro) para a campanha de candidatura a prefeitura do município do Rio. Na ocasião da exposição os nomes do candidato e os números do partido foram tapados. Em um momento em que exposições são vetadas pelo atual prefeito, e em que a secretaria municipal de cultura interfere diretamente sobre decisões curatoriais em seus equipamentos, só nos resta nos cuidar, antes que queiram cuidar de nós. E também rezar para que continuemos esquecidos. Fora da dualidade bom e mau, ser esquecido é bem bom e bem mau. Bem mau porque temos zero recursos. Bem bom porque resta-nos “alguma” liberdade.

Agora, vou partir para censuras de esquerda, ou que se dizem de esquerda, ou seja lá o que for já que está tudo tão turvo e confuso, que nem sei mais qual mão uso para escrever. Não se pode mais falar sobre determinismo biológico no gênero. Eu que nasci com um sistema reprodutivo extremamente problemático (tenho miomas, ovários policísticos e endometriose) sigo em meio a minha rotina mensal calada. Eis a minha rotina. Ontem eu estava ovulando. Sinto dores no ovário que ovula, nos peitos, na região lombar, fico carente, minha energia cai. Ainda assim trabalho. Não posso dizer que estou ovulando e não vou trabalhar. Daqui a uma semana estarei na semana dos infernos da TPM (peitos inchados e doloridos, mau-humor, baixa imunidade que propicia espinhas, gripe e a lembrança dolorida pulsante na gengiva de que tenho mais três sisos por arrancar). Após a TPM estarei uma semana sangrando (roupas reguladas para caso o sangue vaze, estoques de absorventes e remédios para cólica em casa, na bolsa e no trabalho, remédios que não adiantam muito porque sinto uma dor insuportável, uma bolsinha com água quente que é um respiro para amenizar o desespero e, claro, sem esquecer que o primeiro dia estarei inútil, realmente com ele não dá pra encarar quase nada). Depois disso terei duas semanas de “folga” até começar tudo novamente. Folga entre aspas porque ao longo dessas três semanas antes de sangrar estarei paranoica achando que posso ter engravidado. Fui assaltada a faca há alguns meses e estava calma, só pensava na hora na sequência estupro, gravidez e aborto. Fiquei calma por “só” ter sido assaltada. Estou condenada por ter nascido mulher e não posso falar sobre isso por ser determinismo biológico, tenho ouvido que ele é um privilégio.

Sexta-feira passada, último jogo do Brasil na copa, fui assistir com amigos em um bar no Centro do Rio. Entre a rua livre pra passar e uma calçada cheia de mesas e cadeiras apertadas entre elas, um senhor totalmente alterado decide passar na calçada e eu estava em uma cadeira. Nas minhas costas ele passa de frente, se esfregando em mim e decide me alisar e, por mim, encostar nos meus peitos. Começou a “confusão”, e ele não saia e nem parava de encostar em mim. Eu só queria parar e chorar, mas começou uma briga. Separamos a briga e ele seguia sem parar de dizer coisas horríveis. Por fim, passam duas meninas negras e dizem que é um absurdo agredir um senhor negro. Eu respondo que ele encostou nos meus peitos. Elas respondem: ué, fazer o que? Branquela azeda. Eu, que nem sabia que era branquela azeda, apenas pensava que se decidisse ir a um bar sozinha e essa situação acontecesse eu ia ficar exatamente como fiquei na hora. Imóvel de pavor. E não posso falar sobre isso, porque ele era um senhor negro e eu sou uma branquela azeda. Fico às voltas com essa cena na cabeça. A cena que não aconteceu, eu sozinha no bar. Minha não-reação. Decidimos deixar o bar e ir para outro, na Lapa. No caminho, lotado, uma amiga sente alguém apertando a sua bunda. Segura a mão achando que fosse brincadeira de uma amiga. Quando sente a mão vê que é de um homem. Começou a briga pro cara sair. Dois caras viram e falam, não agride ele. Dizemos que ele apertou a bunda dela. Eles dizem: deixa pra lá pô, ele é um velho.

Com os poucos amigos que tenho conversado sobre essas situações ouço que vivemos em um momento delicado, nervos aflorados e não há muito o que ser feito. Eu, mulher, tenho uma condição de livre-acesso em que homens podem fazer o que bem entender, estando eu sozinha ou acompanhada. Se eles forem velhos, não vão mais aprender nada na vida, melhor ficar quieta. Eu, mulher, condenada até a menopausa a ficar anos a fio paranoica entre rezar pra menstruação vir e triste com o processo doloroso que virá antes, durante e depois. Mas esse é o meu privilégio, sou mulher e posso gestar. Pra mim isso é apenas uma condenação.

Segue a dança da auto-censura. Daqui a décadas, a luz da distância, vamos analisar o que está ocorrendo por esses dias. Enquanto isso eu quero falar, não quero mais ficar calada. Sobre a censura institucional, ainda acredito em eleições e elas vem aí. Vamos trabalhar nisso.

Foto: Carolina Lopes

dani

DANIELE MACHADO é Historiadora da Arte (UFRJ) e Mestranda em Estudos Contemporâneos das Artes (UFF) onde desenvolve a dissertação “Construtivismo Latino-Americano na Modernidade Periférica: Método Destrutivo, Ruína em Construção”. É Curadora do Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica e Diretora Geral da Revista Desvio.

 

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