Crítica semanal Ludimilla Fonseca

Assustou?

A rua, um dos principais lugares de interlocução e ativação da arte contemporânea, produz uma sensibilidade comum entre artista e “cidadão”, fazendo com que possamos reconhecer e questionar símbolos e situações do nosso cotidiano. Amando ou odiando, entendendo ou recriminando, sendo contra ou favor, apoiando ou perseguindo, não passamos indiferentes pela arte urbana. E a arte criada por Carlos Joint faz com que reconheçamos a nós mesmos nestes símbolos e situações. Quando passamos pela Avenida Presidente Vargas e nos deparamos com aquela “menina” de três metros, olhos arregalados e mão na frente na boca, o susto dela, é o nosso susto. Choque imediato de pensar em como alguém fez aquilo. Choque diário de pensar em como conseguimos viver em uma cidade/sociedade como a que vivemos. Um susto atrás do outro.

Autodidata, educado no skate e na pichação, Joint não pede autorização pra nada. Sua arte não envolve palavras de ordem (nem mesmo a própria assinatura). Mas é um grito. Por isso, causa espanto e, na mesma proporção, admiração. É por isso que abre nossos olhos e nos empurra para dentro do jogo que ele cria entre transparência e espelho, reflexo e reflexão: a reação dos sujeitos nas ruas se confunde com a expressão dos personagens reproduzidos pelo artista. Ele tem muita clareza sobre o conceito que discute. Ainda que ele mesmo não chame de “conceito”.

Não à toa, as imagens de Carlos desgrudaram dos muros. Elas se multiplicam pelas redes sociais, em um efeito mimético de identificação e identidade, numa espécie de “urban selfie”. Elas foram deslocadas também para as capas de um dos jornais de maior circulação do país, que (finalmente) detectou nas intervenções urbanas sua dimensão de denúncia e registro, indo do gesto social para o poético, do político para estético.

17884087_1315270878556271_3817298371666890547_n_1_569

Os trabalhos de Joint, em todas as suas formas de apresentação, estão conectados a uma maneira de pensar (e agir) urbana por excelência. Seja nos muros da cidade, seja numa tela; num papel ou num tridimensional de MDF; num pedaço de plástico preso no poste ou na placa de sinalização que é carregada da rua para o ateliê e, do ateliê, de volta para rua. Enfim, esta multiplicidade de suportes não tem nada a ver com “extensão temática” (a reiteração do questionamento que se faz em torno da arte urbana: “como sair da rua e entrar na galeria?”). Pelo contrário: a exploração de novos meios não dissolve o cerne libertário do manifesto original do artista, que é o rompimento com as formas oficiais de inserção: cada tela nova, é uma esquina nova; cada novo material, um novo corre.

 O estêncil é a base da criação de Joint e, enquanto operação artística, é uma experiência que alinha arte e cotidiano, produzindo uma “estética da resistência” que tem inspiração política no vandalismo em prol da liberdade e da experimentação da linguagem. Através de diferentes procedimentos estéticos, ele reinventa as formas que estão na rua (nos raros momentos que ele mesmo não está na rua).

 Longe das super elaborações formais, sem investir em texturas ou cores demais, Carlos reitera sua concentração nas camadas. Ou seja, naquilo que é próprio do estêncil. Camada é profundidade, é volume, dimensão. Ele especula, por meio das suas obras, sobre o sentido das camadas da cidade, sobre o significado mais profundo das relações entre pessoas e lugares, não se satisfazendo com as situações, mas registrando-as. Assim, ele restabelece conexões ocultas entre o que o artista deseja e o que o passante despercebido ou a própria polícia pensa. Ele percorre as ruas não como transeunte, mas como ocupante; não como observador, mas como agente atuante; não para seguir um rumo certo, mas para questionar os rumos que tomamos.

 Joint transformou o muro em espelho. Aquilo que define a cidade e é a matéria bruta da vida na polis, é também aquilo que nos define enquanto sujeitos urbanos. Quem dá com a cara no muro, bate de frente consigo mesmo.

 

ludmilla

LUDIMILLA FONSECA é comunicóloga e jornalista formada pela Universidade Federal de Juiz de Fora (MG). Paralelamente, trabalha como curadora e produtora independente de projetos artísticos. Mineira, atualmente, reside no Rio de Janeiro, se dedicando aos estudos curatoriais e de história da arte. Especializada em storytelling, suas principais áreas de interesse são: arte contemporânea brasileira, semiótica e cinema.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s