Camila Vieira Crítica semanal

Sobre lutas e caminhos Crítica à exposição Junho de 2013, 5 anos depois. Final

A última parte da minha crítica sobre a exposição Junho de 2013: 5 anos depois, vai de encontro a este apanhado que fiz nos textos anteriores, sobre os possíveis núcleos temáticos. É plenamente cabível pensar que o motor das manifestações de 2013 veio de um dado histórico, um grito seco carregado de geração para geração e que explodiu num contexto no qual a sociedade brasileira estava muito mais favorecida do que agora, na era pós-golpe, mas que, ainda assim, precisava conviver com os elefantes brancos e com os despejos padrão FIFA, além de um Congresso que, até então, achávamos que conhecíamos. Por isso, a obra de Alice Ferraro, Impugnação, 2018, me fez voltar ao centro da discussão que a mostra sugere: os eventos desmembrados após o ano de 2013. Até então, as correlações que vinha fazendo me absorveram de tal modo que por um momento esqueci tratar-se de um acontecimento recente, porém passado, que fomentou um processo caótico no qual as vísceras do poder burguês brasileiro foram abertas aos olhos de toda a população.

Apesar de todas as críticas que se podem tecer a respeito do governo de Dilma Rousseff, enquanto presidenta da República, precisamos lembrar que as falhas tentativas de imprimir um caráter mais ético ao governo, com o seu pacote de medidas anticorrupção, foram desmembradas por uma câmara cujo presidente foi, ninguém mais, ninguém menos, que Eduardo Cunha. Mais do que isso, me recordo, já a partir do ano de 2014, do intenso machismo que fomentou, além da sanha antipetista, o Impedimento de alguém que não cometeu qualquer crime de improbidade administrativa, mas que foi alvo de uma articulação em cujo centro está o seu ex-vice, Michel Temer. Pode-se, por isso, ler a presença das bocetas carimbadas, de Beatriz Lohana, P&B #1, 2018 bleu, 2018, e a série de fotos de Aleta Valente, Ex-miss Febem 2 , como um dos eixos que alimentou a discussão sobre a sociedade machista e os espaços de poder ocupado por mulheres, após o arrefecer das manifestações.

De fato 2013, apesar de sui generis, possui, dentre as suas diversas camadas, o encontro de lutas históricas que se imbricam na atual configuração da sociedade brasileira. A obra de Alex Frechette, nos concede a memória de cinco momentos de luta que vão desde o primeiro dia de aula de Dorothy Counts, primeira menina negra a frequentar uma escola de brancos, nos EUA, até as diversas greves, de professores à garis, na cidade do Rio de Janeiro. As imagens, desenhadas em pratos, seguros à parede, convocam uma reflexão acerca da evolução histórica que se deu a partir destas e de outras manifestações. Se há, por um lado, o dado concreto de que existe uma memória social transcendente a nacionalidades e a épocas, no quesito das lutas sociais, há também a delicadeza do suporte, para fazer refletir que simplesmente não há direitos definitivamente garantidos: eles podem ser quebrados por contextos autoritários e violentos, como aconteceu durante as  ditaduras latinoamericanas, relembradas nas obras Comissão da verdade #1,2 e 3 e Encher de presença a ausência, 2018. À memória sangrenta destas lutas, atribuo a obra de Thiago Ortiz, Enfer-marias, um trabalho composto por curativos que contém frases e palavras escritas em tinta vermelha.

Do lado oposto da sala, abaixo dos lambes da artista Carô, há uma uma instalação colaborativa pensada por Bárbara Szanieck, que consiste numa projeção de Imagens e Cartazes feitos em 2013, vizinha a uma linha do tempo não-linear, que mostra eventos de censura às Artes desde 2006. Sobre o pórtico que une primeira à segunda sala, há um conjunto de cartazes feitos por Pablo Meijueiro, Instinto coletivo 2012, como material de campanha para a eleição de Marcelo Freixo, que foram auto censurados para serem expostos. Magistralmente, a exposição consegue trazer à tona a questão da censura enquanto modus operandi de uma casta política que governa Brasil e que, por definição, age para impedir qualquer tipo de direito que torne mais humana a sociedade, pois isso significaria menor controle tanto do Braço Armado do Estado, quanto dos meios de Produção e das reais liberdades individuais. A censura por isso mesmo, é violência incorporada. No meio da passagem para a segunda sala, Obra em Obras, 2016, de Camila Braga, serve como uma excelente analogia ao caminho que a humanidade traceja ao longo de sua própria história: todos estes quereres, todas estas demandas, todo este conflito, faz parte da obra humana. O caminho está delineado, mas, como na performance de Juliana Notarial, Symbebekos, 2002-2011, precisa ser aberto, e isso machuca, sangra, aflige. Não por um acaso, como nada na exposição o é, ao contornar a abertura da segunda  para voltar à  primeira sala e sair da exposição, mais uma placa, de Ivan Grilo, anuncia que estes são Tempos difíceis, 2015.

 

camila

CAMILA VIEIRA é formada em Arte: História, Crítica e Curadoria, pela PUC SP, e atua como arte-educadora em instituições culturais. Realiza pesquisas acerca da educação não-formal e de processos curatoriais inclusivos. É autora do livro “A crise da Arte segundo Mário Pedrosa”.

 

 

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