Carolina Lopes Crítica semanal

Tunga e o fio de Ariadne ​

tinham dentes. grandes dentes de metal em uma mesa de xadrez. mais à frente, dentes cravejados em um objeto, como uma jóia. tinha uma colher, exagerada. havia seios nela e, no lugar do cabo, um dedo. eram dedos que apareciam todo o tempo. linhas que se transformavam em dedos, olhos. dedos que se esticavam. segui andando, no chão um osso imenso, de metal curvado, formava um círculo. não soube se era uma jóia gigante. uma jóia gigante que trazia algo de primitivo, pré-histórico. nas paredes, várias figuras geminadas. era como se olhasse e tudo estivesse pela metade. pela metade e inteiro. era como se tudo trouxesse algo da origem do mundo, origem do homem. tudo se tocava, tudo se desdobrava. me atraíram vidros, fui olhar. eram formas diversas, texturas. elas variavam, como um paradoxo, uma gangorra. pretos e transparências, brilho e opacidade. carvão e vidro. era como se o fantasma daquelas coisas me tocassem. eu os sentia, mesmo distantes. tudo aquilo se conectava. tudo rondava. cabelos. tinham muitos cabelos. quando olhei fixamente para eles, eles se dividiam. eram dois caminhos de cabelos, que levavam a duas cabeças. as cabeças me olharam. eram meninas gêmeas. de novo, o espelho. divisão e completude. um homem, perto do mar. encontrava sua própria cabeça, com cabelos imensos. acho que era cabeça de sereia. ele agarrava os cabelos, rodava, lançava no mar. era a sereia que esperava por sua cabeça. um susto, um medo. tinham cobras. mas elas haviam sido enfeitiçadas, talvez. estavam entrelaçadas. tive a impressão de que elas andavam por todo lugar. elas estavam ali.

no museu de arte do rio, tunga – o rigor da distração. curada por luisa duarte e evandro salles, a exposição do artista, com mais de 200 trabalhos, é como olhar o espelho, e penetrar o outro lado. uma realidade duplicada, paralela. como aquela trava no olhar, de quando se está acordado, mas os pensamentos, distraídos e desconexos, como quando se dorme. é surpreendente conhecer esse duplo da obra de tunga: seus desenhos, muitos, ali expostos. são a respiração entre uma escultura e outra, entre fotografia e outra. de alguma forma, os desenhos, atravessando toda a exposição, eram como o fio de ariadne, sustentando o contato com a realidade. ou como acreditava o próprio artista, a outra realidade que é estar acordado.

como um alquimista, é como se tunga tivesse alcançado a capacidade de transmutar elementos, por bem saber: o estado de consciência e o estado de adormecimento são equivalentes, ambos são realidade. ele promove uma abertura entre os dois lados, como o espelho de alice, conservando o trânsito frequente dos signos. paradoxalmente, há ali certa persistência. ao contrário do que se pode pensar, é numa busca incessante, que  tunga os atinge o inconsciente, e não por fruto de acaso. certo é que, nessa produção mística, domina os elementos, e os acessa quando quer. senti que, estando entre seus trabalhos, é como estar de cara com a materialização de um ouroborus: a cobra que devora a própria cauda. uma mistura de eterno retorno a um vocabulário de signos místicos, e um estado de constante fertilidade. enlaçando quem quer que ali estivesse em sua trança labiríntica, virava e voltava, tornava a vê-las. esgueirando-se por todo o espaço, eram elas, as cobras da vanguarda vipertina. conservavam o estado de denso transe daquele ambiente. em certo ponto da visita, perde-se o contato com o fio que conduz à outra realidade: já não há mais como saber qual lado é acordar.

 

CAROLINA LOPES

CAROLINA LOPES, 32 anos, estuda História da Arte na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Fotógrafa e designer, também trabalhou como bolsista do professor Marcelo Campos na Casa França-Brasil, onde esteve mais perto das práticas curatoriais e artísticas. Nascida e criada em São Gonçalo, teve acesso tardio aos museus, cinemas, e espaços culturais; tendo sido completamente envolvida pelo universo da arte desde o primeiro contato.

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