Crítica semanal Mayã Fernandes

Para além dos gadgets: um museu dos futuros possíveis

Nos dias 4 a 8 de julho ocorreu em Brasília a Olimpíada do Conhecimento 2018, uma iniciativa da CNI – Confederação Nacional da Indústria. O espaço contou com a exposição Museu dos Futuros Possíveis organizada pelo Instituto Tomie Ohtake. Com curadoria de Paulo Miyada, a exposição reuniu obras de vários artistas, como Camila Sposati, Eduardo Kac, Gabriela Bilá, Gisela e Leandro Lima, e Pedro França.

A exposição despertou a curiosidade no público por estar em um evento destinado à aplicações práticas de tecnologia para a sociedade. Por que um Museu em uma Cidade inteligente? Em contraposição à toda lógica mercadológica que sugere o evento, o Museu dos futuros possíveis indica a união da arte com a ciência, utilizando elementos do presente para mostrar obras que, em sua composição, possuem abordagem interdisciplinar.

Dentre os artistas participantes, Camila Sposati destaca-se com suas microesculturas realizadas em laboratório com o auxílio de pesquisadores do Departamento de Química da University of London. A artista fazer crescer cristais, por meio do processo químico de nucleação, que consiste em transformar um componente salino líquido em sólido.

Sabe-se que ao longo da história da arte o processo escultórico ocorre por meio da supressão (retirada de materiais), pela adição (reunião de novos materiais) ou pela construção. Diferentemente, o que a artista propõe é a produção de uma escultura acelerando um processo naturalmente realizado pela natureza ao longo de anos. A artista visibiliza um processo natural ao capturá-lo pelas lentes do microscópio.

Em resposta à pergunta inicial do porquê da existência de um Museu dos futuros possíveis, compreende-se que é exatamente para existir um espaço de reflexão, destoando das outras iniciativas presentes no espaço. A reflexão proposta a partir das obras é a de considerar as questões éticas e humanas que podem advir da criação de novas tecnologias e do impacto das mesmas na conformação da nossa sociedade.

A mediação foi fundamental para a contextualização e  o aprofundamento de algumas questões que as obras colocavam, o que possibilitou ao público uma maior afetação pelas obras, desenvolvendo uma percepção própria que propiciava um questionamento que não tinha espaço nas outras atividades da Olimpíada do Conhecimento. Esse fato em si mesmo expõe a contradição institucional presente na noção de “conhecimento” utilizada na Olimpíada. Diante disso, foi essencial a presença de um programa educativo que suscitou questões a partir das obras, fomentando a participação dialética com o público.

 

maya


MAYÃ FERNANDES
 é formada em Filosofia pela UnB e atualmente é mestranda em Metafísica pela mesma instituição. É pesquisadora da Cátedra UNESCO Archai: Origens do pensamento Ocidental e editora da PHAINE: Revista de Estudos Sobre Antiguidade. Estuda a teoria do belo na antiguidade e escreve crítica de arte no site Linhas de fuga.

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