Candé Crítica semanal

Erro de Paralaxe

Existe um filme chamado “Sal de Prata” (2005), conhece? Tem uma velha técnica de roteiro, apresenta o diálogo de antagonistas como meio de resumir horas de explicações. O filme usa muito. Em uma dessas utilizações vemos o esperado embate entre a norma e  a inovação. O modelo de condução emocional das imagens é a verdade cinematográfica versus a romântica flexibilização do processo criativo. O cinema hollywoodiano venceu, o rock morreu, a moda se inspira nos 90’s… me pergunto sobre os reais limites de qualquer norma ou estrutura.

Normas trazem um robusto discurso civilizatório. O conhecimento enciclopédico. As regras e certezas, convicções necessárias ao embate sobre a produção da verdade Ocidental na Europa Moderna. O furor entre Instituições poderosas de carácter religioso, político, acadêmico. Suas apreensões por países subalternizados às metrópoles. Elas levam à segurança do estável, das certezas – um fato.

A vida é incerta. A experiência carioca de vida em contraste com vivências noutros lugares mostram que daqui é mais fácil ver. Marielle é assassinada (há mais de 4 meses!), intervenção na cidade, semanas atrás um adolescente foi assassinado pela polícia indo pra escola. Caos. Carnaval, festas de rua, furor religioso, pressa e prazer, tudo pra agora. Sabemos que o amanhã poderá não existir…

As revoluções da vida contemporânea não são epopeias acadêmicas dos livros e documentários. Invadem os corpos e cotidianos, repensam práticas, onde habitam em nós as minúcias do que queremos modificar. São rápidas, explosivas, globais. Eu me pergunto por quanto tempo respirará a arte moderna brasileira? Em suspiros idosos ou em eternos liftings que não assumem a própria idade, veremos. Artistas que refletem nostalgia eterna, a morte do entusiasmo, a sensação de perdas diárias com a mudança pra outra década. Os antigos sofriam pela queda de Constantinopla, hoje chora-se pelo fim do Minimalismo. O tempo é breve porque a vida também é.

As ideias sobre à força de estruturas sobreviventes às eras não nos surpreende. Engessadas no medo da transformação, erodem no tempo das mudanças. Neorruinismos ressentidos quanto ao fim das macro ideologias. Hoje vivemos uma rede política plural onde as diversidades quebram blocos baseados em lados do parlamento inglês. Diversidade é o jaguar das Américas.

Posso criar linhas específicas sobre como os povos ameríncios da atual América Central erigiam esculturas com signos identificáveis à vários povos e línguas (como os romanos ou as dinastias chinesas?). A forma ancestral da dominação de multidões de corpos, como o ordenamento dos corpos urbanos no metro todos os dias. Corpos domesticados por constantes avisos cordiais: “MetroRio, a vida é melhor aqui”.

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Macro ideologias, cosmogonias tradicionais, modelos teóricos indispostos à verificação… controles do corpo? Formas de dominar os corpos por suas crenças? A quebra dos blocos maciços de pensamento foi temida pelos tradicionalistas. Muito é do novo perfil intelectual mundial abrigando mulheres e todas as raças complexificando conhecimento. Alinhavar tantos contrastes e novos discursos garantindo a legitimidade científica é o desafio da ciência hoje. A profissionalização da arte com inserção acadêmica transmite em inúmeros trabalhos contemporâneos a nota de “paralaxe” (Slavoj Zizek?). O “erro” de ponto de vista bem comum à fotografia (desajuste entre foco e visor, na maioria dos casos) que causa distorções na captação de imagens e propostas de inúmeros trabalhos. Interpôr culturas e linguagens, assumir erros de processo, formas que impelem à experiência imersiva.

 

Implodimos as certezas como uma forma de prisão? Seguimos curatoriando aquilo que nos interessa? Nossos corpos convivem com a incerteza todos os dias e nosso medo em assumi-la deixa nossas marcas em Arte pela Terra.

 

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CANDÉ COSTA

 

CANDÉ é estudante de História da Arte e carioca da Zona Norte da cidade. Filho da Babilônia, transita por vários movimentos urbanos contemporâneos. Artista visual, curador da @Africanizze, coordenador do afoxé 2.0 da UFRJ e mochileiro old school.
Instagram @Africanizze | Facebook – Candé Costa http://www.cargocollective.com/candecosta

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