Crítica semanal Daniele Machado

Não há riscos em abordar o consagrado: anacronismos entre 1964 e 2013

2013 foi o ano que antecedeu as descomemorações em torno do golpe civil-militar de 1964. Os gestos dos corpos que ocuparam as ruas provocaram o retorno e refizeram presentes as grandes cenas adormecidas na memória de milhares manifestando: a Passeata dos Cem Mil em 1968, 24 anos depois a luta pelas Diretas entre 1983 e 1984 e pelo impeachment de Fernando Collor em 1992. Manifestações não cessaram entre esses períodos. O que une esses eventos é a mobilização de setores da sociedade que não tem como prática se organizar politicamente, tendendo até a condenar a organização que sustenta as reivindicações entre esses períodos esparsos. Outra coisa que une esses eventos é Chico Buarque e Geraldo Vandré. Amanhã vai ser outro diaPra não dizer que não falei das flores soam como discos arranhados. Com todo o respeito e reverência a terem sido parte importante de um momento difícil e que possibilita a pouca liberdade que temos hoje. Mas, os tempos são outros!

Que tempos? Tempos em que estamos conectados 24h nos 7 dias da semana. Em que assistimos em tempo real eventos ocorrendo do outro lado do país. Assistimos de várias fontes: das grandes mídias ao pessoas comuns que fazem registros com seus celulares inteligentes que viralizam. Onde as narrativas virtuais se confundem com o real, a ponto de ficarmos em dúvida ainda que se trate do absurdo e que viralizam. Tempos de textos fragmentados. Nenhuma teoria atual em um grosso livro fomentando a reflexão política e filosófica, mas textos em redes sociais, onde é possível se tornar mais que filósofo, mais que político, mais que crítico de arte, mas filósofo pop, político pop, crítico de arte pop. Pop = quantidade de seguidores, likes e comentários. Outro dia foi dito por aí a fórmula do sucesso: uns textões falando mal da galera que também é pop + uns textões fofos falam bem da galera que também é pop + umas fotos de trivialidades cotidianas, como roupas, eventos e comidas cult. A gestão da economia dos likes gira em torno de atrair visibilidade a partir da associação a quem também já é pop e de permitir que os fãs acessem um pouco ou muito da sua intimidade, mas certo mistério deve ser preservado pra preservar a curiosidade. De vez em quando certo desprezo pelos likes também cai bem.

Nesses tempos, os hits de antes não caem mais bem. A sua repetição demonstra o atraso que vivemos enquanto organização política. As velhas instituições mobilizadoras – os sindicatos – não funcionam mais. As grandes manifestações de 2013 foram convocadas por ninguém nas redes sociais. Seguimos batendo cabeça tentando sustentar as velhas instituições políticas, apesar dos avisos seguidos dos tempos atuais.

E aí temos a questão nas artes visuais e os nossos velhos hits. Vejam, a questão que aqui se trata é sobre saber separar a abordagem história e a crítica. Ficamos presos aos Parangolés Hélio Oiticica, aos Bichos de Lygia Clark, aos livros de Lygia Pape, a Repressão outra vez: eis o saldo de Antonio Manuel às reflexões críticas de Mario Pedrosa, em suma, ao legitimado. Não há risco em abordar o consagrado. A aposta no novo pode funcionar ou não. Já o consagrado será pop, sem dúvidas. Ainda mais se já estiver morto. Mas, aí não há crítica, apenas abordagens históricas. Ao falar de arte brasileiras retornamos para cinco décadas atrás, ignoramos o hoje.

A exposição Junho de 2013: cinco anos depois é um fragmento possível dos ocorridos nesse período. Não pretende definir, nem ser a narrativa total, mas um fragmento possível. As quase oitenta obras de 34 artistas abarrotam as paredes do cubo branco. Um contraste entre os elegante discursos curatoriais que respeitam os vazios entre as obras, lhe permitindo um “respiro”, com o tumulto dos diferentes corpos e vozes nas ruas. Exposição tumultuada. O muro externo parte da exposição divide espaço com as intervenções que ali já estavam e já foram apropriadas por outros desejos de quem ali passou depois. As portas abertas confundem onde começa e onde acaba a exposição entre os espaços do centro de arte, talvez você não tenha visto tudo. E está tudo bem. E você pode voltar outras vezes.  As janelas abertas permitem que a rua esteja na galeria. E que a galeria esteja na rua, perde o mistério do que pode ter depois das janelas sempre fechadas. Cartaz curatorial. Cartaz de equipe. Cartazes com censuras. O visual asséptico das exposições e seus textos adesivados não é coerente com o caos das ruas em dias de manifestação. Ouvi um comentário interessante por esses dias. O adesivo faz parecer tudo igual, fora a fórmula genérica dos textos curatoriais. Quase um manual, como o que está em destaque nesse texto. Viva os memes! Meu projeto de arte contemporânea hoje é: Experiência do apagamento eterno. rsrsrs. Os olhos treinados para ver exposições aqui sofrerão. Os dispositivos expográficos foram alterados. A música Quem policia a polícia? do coletivo Frente 3 de fevereiro, vaza pelo prédio e pela rua. Sem anacronismos. Como diz a música ado, aado, cada um no seu quadrado

A nossa história segue em permanente construção. A que já está consagrada, já foi incansavelmente revirada, com perspectivas diversas. Insisto em pequenas histórias das artes. Revirar o que permanece silencioso, intocado. Não é pop, mas é um respeitoso serviço público, ainda mais quando este é prestado com financiamento público de pesquisa. Sobre a crítica, faz falta que haja alguém como nos velhos tempos que convoque ao fomento do incerto, do desconhecido, do ainda não-pop. Nossos hits visuais foram apostas, fazer jus aos seus atrevimentos pelo não consagrado é apostar no atual, não legitimado. É um caminho por construir. Os velhos hits musicais, visuais e políticos, legitimados pelas velhas instituições não vão funcionar hoje. É preciso apostar no novo.

Outra coisa que une as manifestações citadas no início do texto. Ao mobilizar setores da sociedade que não costumam se organizar politicamente se redescobriu ou se descobriu o poder ocupar e o poder de ocupar. Mesmo com os novos tempos, acho que isso permanece e não funciona no virtual. Ocupar somente com os corpos.

 

dani

 

DANIELE MACHADO é Historiadora da Arte (UFRJ) e Mestranda em Estudos Contemporâneos das Artes (UFF) onde desenvolve a dissertação “Construtivismo Latino-Americano na Modernidade Periférica: Método Destrutivo, Ruína em Construção”. É Curadora do Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica e Diretora Geral da Revista Desvio.

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