Crítica semanal Ludimilla Fonseca Sem categoria

Uma esmola pelo amor de deus

No início deste mês, a Fundação Nacional de Artes (Funarte) abriu um edital para selecionar projetos de exposição para ocupar galerias e espaços em Brasília, São Paulo e Belo Horizonte. Só que sem nenhum prêmio em dinheiro ou outro investimento financeiro por parte do órgão. O que significa, objetivamente, que artistas, curadores e produtores terão que arcar com todos os custos, exceto pelos de infraestrutura.

Nutridos pelo cenário político-econômico “desfavorável”, os sistemas de fomento e organização de exposições vêm demandando, além de “criatividade” para a multiplicação das operações curatoriais e de produção, muita paciência. Porém, assim como dinheiro e condições de trabalho adequadas, paciência é uma coisa que não temos mais. Se por um lado estamos sempre nos questionando sobre como desenvolver práticas artísticas comprometidas com a realidade na qual estamos inseridos, por outro parece que a pergunta agora é outra: enquanto classe artística, estamos, de fato, inseridos em alguma realidade ou estamos assistindo a nossa própria marginalização?

Curadorias e produções de caráter não-hegemônico, não-tradicional e inclusivo remetem não apenas à característica “experimental” inerente à quebra das “grandes narrativas”, mas também à procura por discursos e ações polifônicas e efetivas que ampliem nossas possibilidades de afronta e superação das limitações impostas pelo contexto de “crise” e pelo cenário sociocultural de espetacularização e pasteurização das exposições institucionais de um lado e, basicamente, a impossibilidade de se fazer projetos independentes de outro. Sinuca de bico.

Obviamente, este não é um problema específico e isolado da Funarte enquanto instituição. Trata-se, mais uma vez, da falência das políticas públicas para a arte e a cultura neste país. Ainda que de maneira descentralizada e não-formal, reclamamos do tal edital. E, por meio de nota, o Ministério da Cultura (MinC) respondeu que “trata-se de um edital de ocupação de espaços culturais, como tantos outros já lançados pela Funarte, que tem o objetivo de atender demanda específica de artistas e produtores que já têm projetos prontos e que precisam de um espaço para apresentar seu espetáculo ou realizar sua exposição. É uma demanda de boa parte do setor cultural”. Quem tem dinheiro, patrocínio e condições de “se bancar sozinho” precisa mesmo desse espaço? Qual é o papel real da Funarte e, em última instância, do MinC? Formar, garantir, viabilizar, construir? Ou garantir status e visibilidade?

As condições de concorrer com um projeto são ridiculamente desiguais. Ainda que os editais estabeleçam as mesmas regras para todos – a realidade é que “todos” não são iguais. E este fato compõe a base dos contrastes sociais no circuito artístico: o mascaramento de iniciativas desiguais através de instituições de fomento e regulação que pressupõem igualdade. A própria dimensão projetiva da lógica de editais culturais no Brasil – que a torna alinhada a “planos” de governo, é um mecanismo que fragiliza o setor artístico.

Sim, somos dependentes de editais. Mas não, é claro que não estamos satisfeitos com isso. Então, para além de fazer “uma crítica a um edital”, estamos, conscientemente, questionando também a estrutura edificante da arte (de)limitada e financiada por meio de editais. Precisamos deles, porque precisamos de trabalho. E precisamos que os editais tenham verba, porque precisamos ser pagos pelo nosso trabalho. Mas parece que, cada vez mais, o nosso trabalho inclui reiterar e brigar pelo óbvio.

 

esmola

 

 

ludmilla

LUDIMILLA FONSECA é comunicóloga e jornalista formada pela Universidade Federal de Juiz de Fora (MG). Paralelamente, trabalha como curadora e produtora independente de projetos artísticos. Mineira, atualmente, reside no Rio de Janeiro, se dedicando aos estudos curatoriais e de história da arte. Especializada em storytelling, suas principais áreas de interesse são: arte contemporânea brasileira, semiótica e cinema.

um comentário

  1. A Funarte não detém o monopólio de financiamento da produção cultural brasileira. Talvez essa classe que vive de editais tenha que botar a mão na cabeça e pensar se não é ela mesma que se marginaliza, senhora do próprio destino.

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