Camila Vieira Crítica semanal

Para ler um livro sem cansar

Sempre foi difícil para mim fazer resenhas críticas a respeito de leituras, porque a grande maioria dos livros da minha prateleira são livros teóricos. Desde muito concisos a extremamente monótonos, meus livros, cuja maioria tratam sobre arte, exigem de mim uma tal concentração que em muitas das vezes eu simplesmente perco a vontade de lê-los. É verdade que ler um Pedrosa ou um Ponty[1],  pode ser apaixonante.  Incomparável, porém, é o descanso que os livros de aventura e ficção científica me proporcionam. Jamais leria uma coleção de livros de arte com o mesmo apetite que li a sequência dos 7 livros de J. K Rowling[2], a isso se deve, creio, a minha vontade constante de anotar toda e qualquer citação que revele dados que desconheço – e são muitos. isso se aplica a quantos nuques fazem um galeão[3] até o exato dia, mês e ano da primeira exposição que o  famoso grupo de rejeitados do Salão de Paris fez no atelier de um amigo fotógrafo[4]. Lembro-me que até livros como “Isso é Arte?” de Will Gompertz podem me proporcionar um compromisso de meses: eu preciso anotar as datas, os fatos, os sujeitos envolvidos, transformando, consequentemente, um livro fluido em um verdadeiro almanaque do tédio. Se deixo o livro na cabeceira por mais de dois dias, logo retorno à primeira página e o ciclo vicioso da não-leitura se inicia.

Um dos poucos livros que me escaparam dessa verdadeira mágica do não-saber foi “ Não há lugar para a lógica em Kassel”[5], obra  que apresenta uma mistura entre cenas psicológicas e reais, conduzindo o leitor a experienciar, através dos olhos do escritor espanhol, Enrique Vila-Matas, a 13ª Documenta de Kassel, ocorrida em 2012. Conhecido por sua vanguarda literária, Vila- Matas traduziu sua experiência numa obra que meia o documental e o romance. No texto, acompanhamos o primeiro contato realizado pela assistente da curadora Chus Martinez, Boston,- que, enfrentando a resistência do autor, mentiu se tratar de uma viagem financiada por um casal de milionários chamados “MacGuffin”, a pretexto de que o mesmo pudesse conhecer “os mistérios do Universo”-, até a palestra final que Enrique ministrou para um pequeno público no seu último dia antes da volta para casa, carinhosamente intitulada de a “Conferência sem ninguém”. As atividades para as quais Vila-Matas fora convidado compreendiam, entre outras coisas, que ele permanecesse sentado num restaurante chinês,  escrevendo a respeito de seus encontros fortuitos com clientes aleatórios, – encontros estes, que não aconteceram, porém, com a frequência devida, pois o autor decidiu fazer outra coisa.

Através da leitura, percorremos as ruas, bosques e os patrimônios arquitetônicos de Kassel, cidade que inspirou os irmãos Grimm a escreverem boa parte dos seus mais conhecidos contos-de-fada.  Aos estudantes de Arte, a experiência narrada sobre obra de Pierre Huyghe, – que consiste num jardim mal cuidado em cujo centro está uma escultura feminina com uma colméia na cabeça, fazendo paisagem a montes de terra pelos quais um um galgo branco passeia tranquilamente, sem notar que uma de suas patas está  pintada de rosa – , pode ser ótimo exemplo de um texto crítico  feito por alguém que não tem formação na área, mas que a partir da própria experiência, cunha argumentos tão precisos que  mesmo o crítico de arte mais especializado não ousaria questionar.

Colapso e Recuperação é o eixo curatorial da 12ª edição da Documenta, sensações que escritor diz sentir no próprio corpo, pois, segundo ele, ao longo de todo o evento, se mostrou “disposto pelas manhãs”, “cansado à tarde” e “totalmente angustiado” ao cair noite.  Acontece que o livro inteiro é uma grande viagem ao mundo das Artes, fomentado pelo amplo conhecimento que o Vila-Matas tem sobre literatura. De linguagem simples, até mesmo conceitos como “vanguarda” ou a relação que o perfume usado pela esposa de um ditador tem a ver com a Guerra, são digeridos pelo escritor para imprimir no texto uma narrativa absorvente, mesmo que cheia de informações. Não é difícil avançar as páginas e  compreender as referências literárias e filosóficas que estão por detrás do acervo simbólico do autor, revelando a imensa perícia cognitiva e a generosidade do escritor ao compartilhar um pouco de suas experimentações, mesmo as inventadas, com quem o lê.

[1] Mário Pedrosa; Merleau-Ponty.

[2] Série Harry Potter.

[3] Moedas do mundo bruxo.  Um sicle é o equivalente a 29 nuques, e 17 sicles fazem 1 galeão.

[4] 15 de abril de 1874.

[5] VILA-MATAS, Enrique. Não há lugar para lógica em Kassel. Tradução: Antônio Xerxenesky. São Paulo: Cosac Naify, 2015.

 

camila

CAMILA VIEIRA é formada em Arte: História, Crítica e Curadoria, pela PUC SP, e atua como arte-educadora em instituições culturais. Realiza pesquisas acerca da educação não-formal e de processos curatoriais inclusivos. É autora do livro “A crise da Arte segundo Mário Pedrosa”.

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