Carolina Lopes Crítica semanal

We don`t need another hero

– Nós estamos em guerra.

Quem fala é Gabi Ngcobo, curadora sul-africana da 10ª Bienal de Berlim. Organizada por uma equipe de curadores, todos negros, pela primeira vez a Bienal tem a grande maioria dos artistas de regiões ligadas à diáspora africana e, pasmem, mais de 70% dos artistas são mulheres! É evidente que, o teor da linguagem com que se fala, neste nível de entrada, é social. Acaba por não se falar só de arte, o assunto é maior. Ali, e em todo lugar está em guerra. Não que, sendo específico às artes, ganha-se conteúdo em detrimento da forma. Muito menos admite-se o desejo utópico de que a arte salvará o mundo. Não salvará. Mas é do valor da entrada que estamos falando. Se estamos falando de guerra, estamos falando de: ganhar território.

Também em tom de guerrilha, conheci recentemente o trabalho da artista paulistana, Cecilia Cavalieri. A artista aponta para uma reflexão que põe em xeque as estruturas sociais. Como se estabeleceram e sua manutenção. Ela aponta, fazendo uso da coleção de livros Os pensadores, em que só há homens, a seguinte curiosidade: não chegamos a conhecer uma coleção As pensadoras – à época destas produções filosóficas, para que os pensadores se tornassem tais, o trabalho ‘sujo’ para sua sobrevivência, era feito por mulheres. Louça. Comida. Filhos. Roupas. Educação? Só para os serviços domésticos. Que tempo há para tornar-se uma pensadora? Alargo a pergunta para: que tempo há, sendo mulher, escravizado, colonizado, excluído socialmente por conta de gêneros diversos, etc; para produzir arte? Antes, é preciso sobreviver.

Fato é que, isso não quer dizer que não há produção. Mas sim, quando há, é de maneira periférica que há. É nas linguagens e recursos disponíveis que há. E mais, a entrada é mais difícil. Falando do campo que aqui interessa, as artes visuais, é que a briga fica boa. Sendo o lugar primeiro da produção de imagens, é também o lugar das relações de poder e padronização estética. Bem sabemos da imagem como potência. E do quanto, com ajuda das imagens, a construção da ideia desumanizada sobre determinados corpos, se sedimentou. Bem posto, é então este, o cume do monte. O lugar-chave onde a bandeira ‘pós-colonial’ deve ser hasteada. Não à toa, os que, com boa visão, de longe veem a força desta guerra, prontamente estendem bandeira branca. No Museu de Arte do Rio, O Rio do Samba: resistência e reinvenção, No MASP, Histórias Afro-Atlânticas, e todo um movimento de revisão e inclusão nas narrativas históricas.  

Nas últimas semanas, discussões mil em torno de Apeshit, do The Carters. Beyoncé e Jay-Z, entre muitos bailarinos, todos negros, dançam e cantam no templo da arte ocidental. Sequer lançam a mínima mirada em direção a constelação de obras primas penduradas nas paredes. Com exceção da cena final: viram-se para olhar a Mona lisa. Ocupam a frente das obras de prestígio imensurável, desviando a atenção de lá, pra cá. Entre muitas críticas vindas do campo das artes visuais, de recusa ou aprovação, algumas inclusive um tanto racistas, percebemos ainda alguma resistência por parte deste lugar. Não que Beyoncé e cia, sua música e sua dança, entrem na roda das artes contemporâneas – mas sim, para o repertório de imagens de potência. Por falta de representação no templo das imagens ocidentais, diz: não estou aqui representado, agora eu mesmo tomo a frente e me represento. Ainda que do universo da música pop. Ainda que por vias de muito dinheiro. Ainda que com atitude um tanto esnobe. O gesto é forte, e basta, nos muitos lugares que acessa. É com todas as armas e estratégias que se entra numa guerra dessas. O herói que vai salvar os ‘pós coloniais’ vem de dentro e, como já dizia Tina Turner, também nomeando a Bienal – We don`t need another hero.

CAROLINA LOPES

CAROLINA LOPES, 32 anos, estuda História da Arte na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Fotógrafa e designer, também trabalhou como bolsista do professor Marcelo Campos na Casa França-Brasil, onde esteve mais perto das práticas curatoriais e artísticas. Nascida e criada em São Gonçalo, teve acesso tardio aos museus, cinemas, e espaços culturais; tendo sido completamente envolvida pelo universo da arte desde o primeiro contato.

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