Crítica semanal Mayã Fernandes

A simplicidade do cotidiano em tempos hipermodernos

A série fotográfica Caseirices II, de Emília Silberstein, fotógrafa de Brasília, captam a vida costumeira cheia de simplicidade e ternura. Analisando o conjunto de fotografias da artista observa-se séries em que o ambiente doméstico é tingido de luz natural. Aqui, o lar representa a união de duas subjetividades que se fortalecem em um mesmo teto.

A série Caseirices II mostra com exatidão a serenidade da vida privada, revelando momentos do cotidiano que passam despercebidos aos olhares acostumados dos moradores.  A cama bagunçada pela manhã, o inserir da linha na agulha e a leitura matinal. Nas imagens, por vezes é valorizado o fazer manual, as modificações feitas por meio de arranjos humanos, praticidade adotada com sutileza.

Neste espaço, na busca por capturar o agora, lembraoproferido por Friedrich Hegel na Fenomenologia do espírito: o agora já deixou de sê-lo quando é nomeado, é passado. Ao reter o momento, a artista nos convida de modo imagético a perceber a sequência das ações.

O que se destaca são as disposições das linhas traçadas pela luz natural ou realizada pelo desapego humano. Fora da organização, disformes, postam-se acolhedoras. As retas tornam-se curvas e enlaçam o descanso.  As linhas contornam os objetos no jogo de luz que entra pela janela, explicitando o modo de ser de cada um. Na casa habita a união da subjetividade.

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O homem lendo e fumando sob a penumbra indica a busca pelo conhecimento. Para além do que é sensível que a fotografia permite contemplar, permitindo ao espectador vislumbrar histórias não narradas. Após, ao retratar o mesmo lugar sem o homem, a fotografia marca a sua ausência no espaço, demonstra a permanência, o cultivo do lugar. Assim, Caseirices II é a representação do arquétipo de lar, herança traçada pelas mãos e gravada em imagem.  A espontaneidade que sobrevive aos tempos hipermodernos definidos pela individualidade e fragilidade do sujeito.

Emília Silberstein:  https://cargocollective.com/emiliasilberstein/caseirices-II

 

maya


MAYÃ FERNANDES
 é formada em Filosofia pela UnB e atualmente é mestranda em Metafísica pela mesma instituição. É pesquisadora da Cátedra UNESCO Archai: Origens do pensamento Ocidental e editora da PHAINE: Revista de Estudos Sobre Antiguidade. Estuda a teoria do belo na antiguidade e escreve crítica de arte no site Linhas de fuga.

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