Candé Crítica semanal

Space is the place

Cara, todos já quiseram sair de casa, mudar de país, de nome, recomeçar incógnito numa terra estranha onde todo ineditismo turvaria o peso do tédio. Essa vontade de escapar tem criado muita coisa. É um escape do cotidiano, da sensação de confinamento da vida em sociedade. Quando penso em escape me vem a avalanche de blockbusters sobre hordas de zumbis infectados carniceiros. Esse entretenimento de massa é sobre elementos compartilhados, também em massa, como o medo do outro, um velho aliado político durante a História, que ganha grau superlativo nos zumbis de agora. A regra é clara: tememos a estupidificação em massa e o impacto de uma sociedade adoecida no cotidiano humano. Passaram-se os medos das tormentas naturais e do fim do mundo que empesteavam a década de 90. Depois dessa, precisamos inventar uns novos medos, novos processos de histeria coletiva.

Ou seja, o cinema é um extensor de subjetividades humanas. Um manipulador de imaginários. Sem imaginação, impossível criação. De certa forma, quando não é contingência ou surpresa, fenômenos sociais são primeiramente sonhados antes de ganharem corpo. O roteirista branco dos filmes de zumbi teme a ignorância das massas… Homens negros acabam tendo outras subjetividades. Agora eu vou do blockbuster  GMZ ao underground numa frase quando evoco aqui SUN RÁ, o pai do Afrofuturismo. Sun Rá estudou em Berkley, trocou com os intelectuais negros americanos do século XX, viveu as Revoluções Negras estadunidenses da década de 60 onde amadurece sua perspectiva: a negritude sempre reivindicará a identidade negra circunscrita ao projeto ocidental (lembra do Aymè? Releia o artigo “Notas sobre Arte Negra Contemporânea: Negritude”).  Numa era de imposições e limites, Sun Rá expande territórios possíveis através da narrativa fantástica. “Space is the place” é filme dele de 1972 onde (pule um parágrafo se não gosta de spoiler), a Terra é um lugar tóxico para pessoas negras. Pausa reflexiva. Ele interpreta um líder que descobre um outro mundo onde podemos recomeçar. E advinha como podemos chegamos neste lugar? Portais intergalácticos abertos através da música. Esse cara…

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Antigo Egito evoca as análises de Cheik Anta Diope sobre Kemet, o Antigo Egito, e o berço negro da civilização. De lá vem o Rá, deus Sol egípcio, uma forma mais bonita de Jesus, que inspirou seu pseudônimo. Assim, existe sempre uma sensação nostálgica sobre as origens como elementos essenciais pervertidos pelo mal da ocidentalidade branca – a nossa versão do neo platônico, o Hatata do paraíso perdido… Um meio de mudar retornando ao passado que não pode ser roubado da África para alimentar a força necessária para saltar ao futuro possível, ao desconhecido habitável. Sun Rá chegou a dar cursos sobre o Homem Negro no Espaço nas décadas seguintes. Uma oportunidade de trabalhar linhas invisíveis. É bem fácil falarmos hoje de Afrofuturismo com AFROPUNK sendo a veneração da juventude negra global. Mas começou com uns caras muito loucos falando de pretos no espaço com cotas de malha feitas de anel de lata dourado, lisergia e muito Jazz.

Amaremos todos os tiozinhos loucos da arte por todo, todo sempre.

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CANDÉ COSTA

 

CANDÉ é estudante de História da Arte e carioca da Zona Norte da cidade. Filho da Babilônia, transita por vários movimentos urbanos contemporâneos. Artista visual, curador da @Africanizze, coordenador do afoxé 2.0 da UFRJ e mochileiro old school. Instagram @Africanizze |Facebook– Candé Costa http://www.cargocollective.com/candecost

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