Crítica semanal Daniele Machado

Obra em obras – Texto 1

O título deste texto toma emprestada a instalação da artista Camilla Braga: trabalho fundamental na curadoria da exposição Junho de 2013: cinco anos depois. Realiza a transição entre os que se referem de forma direta ao que estava – digo de forma grosseira – naquele momento sendo visto de forma concreta na geografia da cidade e as reconfigurações de vivências nos corpos, pertinentes às questões espaciais e também outras que escapavam a elas. Microdinâmicas de existências e suas aglomerações despertadas então. Trabalhos que saem da superfície da denúncia panfletária para a dimensão poética, sem perder de vista a opção por um lado nas disputas que passaram a reduzir as perspectivas diversas, fragmentadas, entre esquerda e direita, petistas ou anti-petistas.

À leitura inicial onde o visual corriqueiro de interdições nas ruas e avenidas da cidade às vésperas dos megaeventos, em que a cidade do Rio de Janeiro foi a mais afetada do país, pode-se acrescentar duas. O desconforto visual e espacial da instalação, que restringe a circulação nas galerias, em contraste com o ambiente formal e elitista da galeria de arte, um prenúncio a quem se encaminha para a mostra, quase uma força gravitacional que direciona os primeiros olhares de quem ingressará em qualquer das duas entradas das galerias.

O olhar passa do laranja que grita das redes de proteção para as janelas abertas com a rua caótica, que passando o estranhamento inicial por estar ela mesma ali, não só um recorte seu através da interdição de Camilla, para uma curiosidade sapeca que leva os corpos a se debruçarem nas janelas para ver como a rua fica vista dali. Sem grande surpresa, o que se encontra é apenas a rua mesmo.

A janela foi remanejada ao longo da história da arte por diversos caminhos. A síntese que havia de mundo para representar cada época. Artigo de luxo na arquitetura colonial, de decoração na neoclássica, de função na moderna, o windows hoje… O prédio eclético do CMAHO, que flerta com o neoclassicismo então em moda na cidade na segunda metade do século XIX quando foi construído, possui janelas que não levam à Praça Mauá remodelada, à Baía de Guanabara, ao Pão de Açúcar ou aos Jardins de Burle Marx. As janelas abertas trazem o Saara. Os sons que disputam seus espaço, os ambulantes, músicas que agradam quase todos os gostos, as quinquilharias de todo tipo que os chineses vendem, as putas que resistem a gentrificação com seu portão. Esta última, tão visível, sobressaindo em dissonância com a decadência permanente do restante dos prédios da região. Vez ou outra desperta comentários de visitantes menos assíduos nossa, como ficou bonito aqui…

Pois bem, o trabalho de Camilla Braga também é uma síntese possível de 2013, que também é uma síntese da história do nosso país (entenda-se) pós-colonização: obra em obras. Afinal, não esperávamos mesmo que 513 anos de exploração fossem resolvidos em um mês, né? Uma perspectiva delicada que se conecta com as obras que tratam das narrativas cotidianas bem humoradas, cheias de solidariedade e posições políticas do trabalhador que sobrevive ao péssimo transporte “público” e ao custo de vida caríssimo da cidade como nas crônicas de Phillipe Valentim. Que tratam de forma lúdica as denúncias e pitadas de esperança quanto a revolta diante dos crimes praticados pelo Estado como os quadrinhos de Tavarez Vandal que saem dos ônibus, das zines e dos adesivos colocados por aí para a caneta posca sobre a parede da galeria de arte. Como também é o kit para manifestantes em uma caixa “do” Mc Donalds onde a surpresa “é” uma granada. Como são os registros dos cartazes da instalação colaborativa de Barbara Szaniecki com a multiplicidade das pautas das manifestações que são uma das novidades de 2013 e junto com elas vem um pouco dos sujeitos que os fizeram. Seguimos em obras…

(Esse texto continua na próxima semana)

 

dani

 

DANIELE MACHADO é Historiadora da Arte (UFRJ) e Mestranda em Estudos Contemporâneos das Artes (UFF) onde desenvolve a dissertação “Construtivismo Latino-Americano na Modernidade Periférica: Método Destrutivo, Ruína em Construção”. É Curadora do Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica e Diretora Geral da Revista Desvio.

 

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