Crítica semanal Ludimilla Fonseca

Sobre sensores e censores

O artista mineiro Rafael Ski inaugura hoje a instalação interativa Faceless n´OandarDeBaixo – espaço independente na cidade de Juiz de Fora, MG. O projeto é financiado pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura (Lei Murilo Mendes) e a proposta é discutir sobre a privacidade diante da superexposição em que vivemos atualmente, com câmeras e telas em todos os lugares.
Apesar de seu arranjo futurista distópico, Faceless está ambientada no aqui-agora: na realidade da telepresença, onde um novo sistema panóptico foi implementado. Essa atualização renova o princípio da vigilância para além de sua abordagem clássica de “patrulhamento”, adicionando a versão contemporânea do “desejo de olhar”, que diz respeito à vontade/necessidade de ver e ser visto. A base conceitual deste projeto artístico é exatamente a estrutura de poder que existe por trás das milhares de telas que nos cercam e que configuram nossa experiência de sociedade atualmente. A partir desta obra instalativa, Rafael Ski revela essa estrutura, denunciando uma espécie de “neoliberalismo da vida”.
Ele trabalha com as ferramentas de seu tempo: a chamada “baixa tecnologia de ponta”, explorando componentes eletrônicos acessíveis, simples e cotidianos combinados com recursos avançados, como reconhecimento facial e sensores de movimento. Mas o senso de realidade que sentimos ao entrar em contato com as produções do artista está relacionado não apenas aos aspectos responsivos e multissensoriais de suas programações engenhosas, mas também ao incômodo de perceber que há algo mais que Ski está dizendo: algo sobre o nosso (mal) estar no mundo contemporâneo.
Faceless é como uma esquina movimentada de uma grande metrópole. Por trás do concreto e das câmeras, das telas e das janelas, existe um emaranhando de fios: todo um sistema (no sentido computacional e político) operacionando nosso modo de vida, acompanhando cada movimento que fazemos. Estes fios cruzam nossos dados pessoais aos princípios vigilantes de Bentham, às noções do big brother de Orwell, à atualidade dos conceitos de Foucault, às cifras de Mark Zuckerberg, às fazendas de robôs produzindo likes… Tudo plugado.

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Na instalação, dezenas de câmeras conectadas à diferentes tubos de ferro, pendem no ar e se destacam em meio a centenas de metros de fios coloridos. Basta alguém pisar por ali para que todas as câmeras lhe olhem automaticamente e em conjuto, como cães de guarda eletrônicos. Sempre em vigília, elas miram atentamente para qualquer corpo que se aproxima e continuam seguindo seus movimentos, quaisquer que sejam as direções tomadas. As câmeras são como organismos vivos mimetizando cada uma de nossas ações. No meio disso tudo, quase escondida, há uma televisão que funciona como um espelho, no qual nos vemos cercados de câmeras, porém, sem rosto. Olhos, nariz e boca foram removidos digitalmente. A identidade se perdeu. Somos reduzidos a um corpo vigiado.

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É isso: o Big Brother deu lugar ao Big Data e não somos mais indivíduos dignos de vigilância e necessitados de punição. Somos um aglomerado de informações rastreáveis que valem dinheiro. Há uma confusão generalizada entre poder e liberdade, autoridade e consentimento.
Nesse sentido, Faceless é um exercício sobre a experimentação dos nossos limites sociais: o desejo de ser notado, a impaciência para checar as notificações, o medo de ser ignorado  e a falta de consciência sobre os efeitos da nossa própria exposição. E o preço a pagar pela nossa existência digital parece ser a rastreabilidade total. Num jogo permanente de sedução e distração, somos colocados num paradoxo de condicionalidade e conformidade. Ou seja, nossas necessidades individuais, nossos desejos pessoais e os próprios serviços públicos estão sendo transformados em objetos de consumo que ficam ao alcance e ao dispor da “internet das coisas”.

As implicações socioculturais (e, inclusive, políticas) da nova cultura digital constituem um campo infinito de exploração artística. É exatamente aí que Ski atua, produzindo uma experiência ético-estética, cognitiva e catártica. Entre exposição e exibicionismo, existe uma complexidade psicossocial que é explorada pelo artista através do “exercício do ver”, revelando espectros da nossa subjetividade e aspectos dos processos de representação coletiva.
Usando a própria tecnologia para falar sobre seu impacto, Rafael Ski aborda a questão da identidade a partir do paradigma da privacidade versus a publicidade. Entre sensores vigilantes e censores furtivos, confundimos personalizado com personalidade, individualidade com individualismo e, quando todo mundo tem a mesma cara, ninguém tem mais cara nenhuma.

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ludmilla

LUDIMILLA FONSECA é comunicóloga e jornalista formada pela Universidade Federal de Juiz de Fora (MG). Paralelamente, trabalha como curadora e produtora independente de projetos artísticos. Mineira, atualmente, reside no Rio de Janeiro, se dedicando aos estudos curatoriais e de história da arte. Especializada em storytelling, suas principais áreas de interesse são: arte contemporânea brasileira, semiótica e cinema.

 

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