Camila Vieira Crítica semanal

Sobre o abuso da Arte Erudita

O artigo de hoje propõe uma análise a respeito da cisão conceitual entre a Arte Erudita e a chamada Arte Popular. Essa reflexão foi suscitada a partir de um depoimento de Ariano Suassuna, que, em uma das várias aulas-espetáculo que realizou, afirmou não ser a Arte Popular o oposto da Arte Erudita, pois não haveria nada mais errôneo do que supor que no popular não há erudição. O oposto de erudito é o  inculto, o  ignorante, coisa que a arte popular, segundo Suassuna, não é. A fala do escritor, por conseguinte, também conflui ao pensamento do grande crítico de arte que foi Mário Pedrosa, para quem o conceito da Arte Popular, em separada da Arte Erudita, surgiu na Modernidade, a partir do ideário burguês, pautado pela sociedade capitalista. A Arte erudita, segundo Mário Pedrosa, é nada menos que o emblema do aparelho ideológico no qual a sociedade burguesa se apoia, cujos valores estão diretamente ligados ao êxito individual. Acerca dessa assertiva, Pedrosa sugere que essa análise sobre essa cisão deva ser feita, portanto, a partir da perspectiva da luta de classes.

Sob o domínio ideológico da burguesia, a figura do artista, segundo o crítico, passou de um produtor de obras de Arte, para o produtor de obras de Arte Erudita, pois, contrariamente, ao criar obras remetidas ao popular, o artista estaria fazendo as vezes de um artesão, considerada uma função menor. Enquanto que a obra de Arte Popular gira entorno da comunidade que a suscita e envolve questões econômicas imediatas: o artista somente a produz de acordo com a necessidade, através da venda direta; o Mercado da Arte Erudita se expressa enquanto fenômeno de riqueza e status. O sintoma deste fenômeno é que a assinatura de determinado artista passou a valer mais do que a obra em si. Para Mário Pedrosa, a Arte Erudita, portanto, é uma forma de mistificação cultural.

É bem verdade que durante milênios a Arte foi caracterizada pela expressão dos símbolos de poder, concedendo a normalização social a uma determinada ordem estabelecida. Mesmo assim, enquanto se manteve figurativa, ainda estava ao alcance das massas. Com o surgimento da fotografia a mensagem de poder foi transferida aos meios de comunicação em massa, e, afirma Pedrosa, foi somente essa transferência dos meios que permitiu à linguagem artística ser mais complexa. De figurativa, a Arte se tornou cada vez mais abstrata, distanciando-se à classe popular, que, uma vez alienada tanto dos meios de produção quanto do saber acadêmico, foi sucessivamente excluída dessa semântica. Ademais, foi apenas a fronteira entre a Arte Erudita e Arte Popular, que permitiu que mesmo peças feitas nas sociedades pré-capitalistas fossem convertidas na chamada Arte Erudita. Enquanto um artigo de luxo, acessível “apenas aos iniciados”, a Arte Erudita passou a ser um produto feito para o “consumo conspícuo” da burguesia, parafraseando Marx. Uma vez desvinculada de seu valor simbólico, a obra de arte se tornou equivalente a um valor monetário.

Tão mercadoria, quanto qualquer outro produto produzido para alimentar o Capital, a chamada Arte Erudita serve apenas aos valores mercadológicos da sociedade capitalista. A classificação entre a Arte Erudita e a Arte Popular, não propõe uma reflexão sobre o importância que tem determinado objeto artístico para a sociedade, também não diz sobre  seu projeto, seu conceito ou seu material. Ao que tudo indica, segundo Pedrosa, a verdadeira problemática que envolve bifurcação conceitual sobre o que é a Arte Popular e o que é Arte Erudita está na subordinação da produção artística aos padrões “instáveis e aleatórios”, da sociedade de Consumo.

 

 

camila

CAMILA VIEIRA é formada em Arte: História, Crítica e Curadoria, pela PUC SP, e atua como arte-educadora em instituições culturais. Realiza pesquisas acerca da educação não-formal e de processos curatoriais inclusivos. É autora do livro “A crise da Arte segundo Mário Pedrosa”.

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