Carolina Lopes Crítica semanal

Baba cura

gostaria de te dar agora um objeto, simples, cotidiano e banal, para segurar. talvez então a gente possa compartilhar algo, como uma baba. botar uma interioridade minha, particular, para fora. e engolir a sua. gostaria que, com a ajuda de algum objeto, algo como uma roupa, pudéssemos nos tocar. abraçar o encontro. não só conceitualmente. não só ver. tocar, sentir, cheirar. gostaria de, ao mesmo tempo, com esse objeto que me toca, conectar-me à parte de dentro. como se, a partir da ativação de todos os sentidos, chegasse a ser completa.

a extensão da fama da artista brasileira lygia clark, e de seus trabalhos é ampla. de superfícies moduladas, contra relevos, bichos, máscaras-abismo, objetos relacionais às babas antropofágicas, sua obra percorreu um caminho de descolamento. a obra de arte já não se concentra mais no objeto em si. o lugar de fetiche, habitualmente ocupado pelo objeto, na obra de arte, se desfaz. na verdade, o objeto, na obra de lygia deslocou-se em direção ao orgânico. beira a imaterialidade. existe o objeto, mas ele é só um pretexto.

é quase como a tentativa de conter um momento, no espaço. é como um retorno ao aqui e agora da obra de arte, comentada por benjamim1. nao aura do objeto, mas aura do encontro. é como se o momento do contato entre os lados, o encontro por si só passa a ser matéria. então o trabalho toma forma, apesar de sua suposta forma, acolhida pelo objeto. neste diálogo, o espectador perde sua configuração tradicional. ele é parte ativa do trabalho. — meu grande ego me fazia dar tudo ao outro, até a autoria da obra2 — disse lygia.

partindo de objetos, para experimentação dos olhos, passa a incluir o tato. bichos. o sentido, na obra de lygia, aponta para uma certa completude. foi preciso incorporar o corpo inteiro. o ser inteiro. o ser inteiro e o mundo inteiro. a obra aqui, agora, é um filtro para a experiência no mundo. são os olhos livres das imagens. a imagem, em sua obra, se dilui. como um ziguezague, um movimento intenso de reflexos. interior e exterior abandonam seus limites. binarismo, bilateralismo, significados únicos, devem volatilizar, neste fluxo orgânico.

médico e paciente. por fim, lugares tradicionais da arte, artista e espectador se rompem e se transformam. bem como o objeto, para lygia, já havia sofrido. em suas proposições, promove um estado de consciência: física, localizando o corpo e, no corpo, os sentidos todos; mental, pela ativação do corpo físico, um espelho psíquico. com a baba antropofágica, os interiores entram numa espécie de simbiose, monstruosa. é a linha que sai da boca. linha que, babada, cobre o corpo. todos participam. é uma cura: o ser, fragmentado, recolhe-se, recoloca-se, reconstitui-se, partilha-se.

BENJAMIN, Walter. A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica.

BASBAUM, Ricardo. Arte contemporanea brasileira. Texto: BRETT, Guy. Lygia Clark: seis células.

 

CAROLINA LOPES

CAROLINA LOPES, 32 anos, estuda História da Arte na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Fotógrafa e designer, também trabalhou como bolsista do professor Marcelo Campos na Casa França-Brasil, onde esteve mais perto das práticas curatoriais e artísticas. Nascida e criada em São Gonçalo, teve acesso tardio aos museus, cinemas, e espaços culturais; tendo sido completamente envolvida pelo universo da arte desde o primeiro contato.

 

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