Crítica semanal Mayã Fernandes

Leitura enviesada

A exposição Eu Leitor, que acontece na Biblioteca Nacional de Brasília, no período de 27 de julho a 23 de setembro, parece possuir como objetivo ser uma experiência inovadora e interativa acerca do universo da literatura e da escrita, com a curadoria de Luiz Carreira.

A entrada da exposição conta com duas linhas do tempo, uma que marca o surgimento da escrita na cultura ocidental e outra que apresenta escritores/as. Composta por esses dois painéis, posicionados frente a frente, a linha da escrita demonstra alguns equívocos históricos. De um lado, o primeiro painel traz a proposta tendenciosa de que existe um processo evolutivo relacionado à escrita. Constam informações generalizadas, omitindo, por exemplo, a colonização do oriente pelo ocidente. Há também um equívoco conceitual básico, em relação ao termo “filosofia” (do grego philosophia) como o amor pela verdade ao invés de amor pela sabedoria. Para além disso, afirma-se que o seu nascimento ocorreu através de um “milagre grego”, discurso bastante ultrapassado, que postula que a filosofia surge do rompimento com o mito, com a oralidade, legitimando os escritos de Sócrates, Platão e Aristóteles como filosóficos, sem considerar o contexto histórico do próprio período e as distintas filosofias não ocidentais.

A visão histórica colonialista fica explícita no painel ao tratar da escrita como um fator fundamental para a evolução da sociedade e das religiões. Considerar a escrita como demarcador evolucionista de uma sociedade marginaliza as religiões não cristãs que utilizam da oralidade ancestral. O segundo painel propõe uma linha temporal interdisciplinar, no qual algumas obras foram indicadas como marcadoras de cada geração, sendo em sua maioria de autores homens, ofuscando o trabalho intelectual das mulheres, que é tão antigo quanto o início da escrita. Também houve o ofuscamento da produção intelectual de alguns períodos, como do século I a IV d.C.

Ao longo de toda a exposição, a leitura foi vinculada ao sentido da visão, desconsiderando que existem pessoas que leem de outros modos, não contando com inscrições em braile.

O grande feito da exposição é a sala Alexandria, um ambiente descontraído, reservado à leitura e descanso, estímulo à leitura e criatividade.

 

maya


MAYÃ FERNANDES
 é formada em Filosofia pela UnB e atualmente é mestranda em Metafísica pela mesma instituição. É pesquisadora da Cátedra UNESCO Archai: Origens do pensamento Ocidental e editora da PHAINE: Revista de Estudos Sobre Antiguidade. Estuda a teoria do belo na antiguidade e escreve crítica de arte no site Linhas de fuga.

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