Candé Crítica semanal

5 Reflexões ao ir numa Exposição de Arte

A morte d’A Verdade sobre A Forma Correta de se experimentar uma exposição de arte foi decretada e executada faz tanto tempo que já foi esquecida na papelada imensa dos óbitos da História. Quem disse que meu interesse é inventar uma nova incorporação de Doutor Frankenstein ou Madame Voodoo? Sem revirar túmulos. Deixem os mortos em seus lugares. Até porquê como “toda regra tem exceção” é uma contradição lógica, dizer que não há verdade ou lei universais também é.

E daí, não é Verdade? Qual o problema nisso? Incoerências são substrato do universo. A coerência é uma busca por adesão aos conceitos, é meio apolínea – e cada um no seu quadrado. Sempre me lembro de Esù nesses momentos e de como essa cultura resolveu as contradições do humano com excelência. Suas histórias apontam o impacto do conflito dos pontos de vista e como podemos coabitar com elas.

Mesmo não entendendo um esquema central único que possa garantir, sistematizar ou aferir um potencial máximo de experiência numa exposição de arte, compartilho cinco pontos que tenho achado fundamentais quando estou nas galerias. Questões que estão no ar, são parte do sistema da arte e que, integrado à experiência sensorial, podem dar uma sacudida na sua relação com exposições ou no mínimo renovar um velho hábito.

  1. As Narrativas Monolíticas: 2 Deleuze 4: 7 – “As obras de arte são a forma do conhecimento.” Piadas à parte, Teoria da Arte talvez seja tudo o que temos. Mas não é uma Bíblia. Assim como a Bíblia talvez encerre os padrões da cultura hebraica que interessaram ao Ocidente, a Teoria da Arte é a fala dos homens brancos europeus sobre o mundo das formas. Desconfiar faz bem. Não porque os brancos europeus sejam os vilões malvadões, mas porque hoje já sabemos que a diversidade de narrativas tem sido uma das ferramentas mais eficazes no aprofundamento do conhecimento humano. Muita atenção a “Panoramas”, “Retrospectivas”, exposições iniciadas por “A Arte + nome de qualquer etnia/raça/gênero”. Costumam ser apenas opiniões megalomaníacas sobre como o mundo funciona. Nossas tecnologias de diálogo e entendimento de nossas diferenças ainda não solucionaram nosso abismo cultural e social. Precisamos da escuta. Uma História sempre tem mais de um narrador.
  2. Financiamento: Óbvio. Não precisamos de uma economista pra entendermos a verdade do mercado nos sistemas da arte mundial. Fora que Exposições tem custos, e não são poucos. Além do espaço, pessoal, obras, translados, divulgação, além de termos na Arte um dos setores menos profissionalizados do país. Obras consagradas tem seguros astronômicos. E raras exposições se pagam com ingressos… em nosso continente. Se não é uma galera corajosa e empreendedora ou um mecenas contemporâneo valorizando o próprio acervo, quem paga as exposições é o Estado e elas servem ao interesse público. Arte é Direito Humano, muito encaixado no eixo da Educação em nosso país. Assim, exposições públicas participam do papel social dado à Educação. Ele também deve atuar no mercado de arte, permitindo que seja competitivo e assegurando aos novos empreendedores uma participação democrática já que mercado media trabalho e vários outros Direitos. Tem quem defenda que artistas não são profissionais, um debate pra depois, mas não exime a equipe de produtores necessária pra existência de qualquer Exposição. Financiamento gordo? Participação pública ou exclusivamente privada? Qual é a visão de papel que a verba privada vê para si? Existem Galerias que veem um papel pedagógico inerente ao seu trabalho, outras não. Assim como a Democracia custa caro aos cofres públicos de todos os países, a Arte como Direito é uma prioridade do país? Fica fácil responder tudo isso quando seguimos os rastros do dinheiro.
  3. Diversidade: Diversidade é pra além da quebra com as narrativas monolíticas, é qualidade e competência. Empresas com diversidade internas são mais bem sucedidas. Estados com maior Diversidade em seus cargos orgânicos também tem melhor performance reconhecida. Diversidade de composição permite uma multiplicidade de olhares. São estes olhares diversos sobre o mesmo problema que permitem solucioná-los em tempo mais hábil, criar estratégias mais abrangentes e dar melhor suporte aos erros. Somos mirantes, cada um de nós. Entenda os mirantes envolvidos, sua abrangência e seus limites.
  4. Artista quem? A vida é curta, são bilhões de humanos. Não conviveremos com todos ou todas e o mesmo é com artistas. A maioria das relações das Artes Visuais são com imagens acessíveis em qualquer dispositivo conectado. O que está on line vira algo como parte de um infinito eterno das redes on line – como aquele comentário podre que fez dez anos atrás e ainda está na sua timeline. O que está acessível já é parte do deus internet. Mas tem um infinito sendo criado paralelamente. Artistas estão propondo formas o tempo todo. Nem todas cabem num gif, registro ou fotografia. Valorize seu tempo incluindo eventos de novos artistas. Tá fresquinho, criatividade é obrigatória pra essa galera e o preço é bom.
  5. Curadordeus, livrai-nos! Olho no lance, atenção às narrativas curatoriais. Cada trabalho de arte pode ser interpretado de ênfases distintas. Ênfases e distorções são coisas bem diferentes. Curadores incluindo artistas iniciantes com consagrados sem qualquer relação para valorizar o passe. “Perfis afetivos” sobre trajetórias de artistas como Plano B para valorizar obras menos queridas pelo público. As obras que saem do fundo do baú de um acervo poderoso pra circular antes de sua venda no mercado secundário. E essas valorizações de próprio acervo tem sido feitas em grande parte com a verba pública citada pontos acima? Curadores entendem o Mercado. Os mais ousados fazem apostas, defendem pontos de vista. Tem forte influência sobre artistas ou por suas relações ou por sua legitimidade intelectual. Humanos que querem realização como você. Talvez seus interesses batam… talvez não.

Penso que Buda tem uma certa legitimidade mundial, concorda? Nada contra. Seus conselhos são celebradíssimos. Depois de páginas de texto com aqueles calhamaços de estórias e conselhos do Buda, pelo menos na perspectiva Zen, vemos um mesmo conselho em comum:

“Se o que digo toca seu coração, leve consigo. Se não… [Vai lá…] pode jogar.”

les dix commandements

 

CANDÉ COSTA

 

CANDÉ é estudante de História da Arte e carioca da Zona Norte da cidade. Filho da Babilônia, transita por vários movimentos urbanos contemporâneos. Artista visual, curador da @Africanizze, coordenador do afoxé 2.0 da UFRJ e mochileiro old school.
Instagram @Africanizze | Facebook – Candé Costa http://www.cargocollective.com/candecosta

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