Crítica semanal Ludimilla Fonseca

Ele não viu que eu estava com roupa de escola?

No último mês de junho, Marcos Vinícius da Silva, de 14 anos, ia para a escola quando decidiu voltar para casa após ouvir os primeiros tiros disparados do helicóptero da Polícia Civil, em operação no Complexo da Maré. Mas não deu tempo: “ele não viu que eu estava com roupa de escola?” – perguntou Marcos Vinícius para sua mãe, após ser baleado na barriga. Ele morreu no hospital. Mais de um mês depois, a pergunta continuou ecoando enquanto eu visitava a exposição “Heróis nunca celebram vilões – Heróis apenas celebram vilões” primeira individual de Igor Vidor na Galeria Leme, em São Paulo.

O artista apresenta um conjunto inédito de obras que, de cara, impactam pela montagem inteligente. A arquitetura da Leme é desafiadora, com paredes de concreto armado e pé direito altíssimo. Mas graças a expografia bem estruturada, o espaço absorveu o caráter bélico dos trabalhos criando a sensação de estarmos em um bunker gigante. E lá de cima das claraboias, de onde vinha luz natural, caía também uma chuva de balas.

Se você está ouvindo isso já é tarde demais” é uma espécie de mensageiro dos ventos. Porém, ao invés de pender do teto trazendo proteção e boas energias, a obra é estruturada a partir de balas recolhidas pelo artista em áreas de conflito no Rio. O trabalho tem um forte apelo sensorial: ficar ali embaixo, vendo as balas caindo na sua direção, é no mínimo, desconfortável. No silêncio da galeria, começamos a ter a impressão de ouvir os tiros. E se nos refugiamos desviando o olhar para baixo, estamos diante de mil lápis vermelhos espalhados pelo chão como cápsulas quentes depois de um tiroteio. Cada um dos lápis foi estampado com a frase que dá título à exposição. Quem sobrevive ao jogo da violência e escreve a versão oficial da história? Com uma mesma linha desenhamos Estado e crime, herói e bandido.

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Vale a ressalva de que a disposição das obras não cria um efeito cênico. Pelo contrário: uma dinâmica de ativação envolve toda a galeria criando relações intrínsecas entre o espaço expositivo, as obras e o mundo lá fora. Inclusive, a inserção de elementos da pesquisa de Vidor na exposição reafirma essa pulsão entre arte e realidade, sem cair nos didatismos e redundâncias da “arte-denúncia” ou da “arte engajada”. Entre esses elementos está, por exemplo, “Documento 1 – Anotações Livro Caixa”, que é uma página original com anotações sobre transações financeiras do tráfico, emoldurada com vidro vermelho. É claro que conhecer as pesquisas dos artistas não é necessário para “entender” suas obras. Mas talvez funcione no sentido de incentivar que a investigação continue. É um efeito potencializador. A pesquisa de Igor, especificamente, tem um tom emergencial, de necessidade. É uma visão de quem olha o sistema de dentro, de quem recolhe pequenas peças de um enorme quebra-cabeça.

E essa não é uma metáfora gratuita. As relações entre juventude e violência, a brincadeira e o perigo, a pipa e o pipe, o aviãozinho e o helicóptero, estão no centro da pesquisa do artista. Um empenho que vai além de tentar compreender o que significa crescer em um espaço público marcado pelo conflito, mas entender a quem o conflito e sua manutenção interessam. Nesse sentido, “Câmbio flutuante” é uma obra que chama a atenção para a produção em massa de armas e para a constante especulação em torno do contrabando, evidenciando que a rede internacional que sustenta o tráfico nas favelas cariocas.

E lá de cima, o Cristo continua onipresente só vendo a vista. Em homenagem a ele, “Batidão M4A1, presente ao redentor” é a primeira de uma série de esculturas pensadas em proporção real para a estátua do Cristo no Rio. O colar com um pingente de arma (batidão) faz alusão a uma imagem de dois garotos vestidos com uniforme escolar, usando uma bijuteria similar. Que deus proteja as nossas crianças (e os nossos pontos turísticos).

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Vidor, que nasceu em SP, atualmente mora no Vidigal. É lá que, muitas vezes, ele coleta estes objetos que estão impregnados da conjuntura violenta que configura o dia-a-dia das favelas (não só do Rio de Janeiro). Igor também recolhe armas de brinquedo feitas por crianças. “Roubei-lhe a idade e lhe cobrei juízo” é exatamente uma coletânea destas armas que acabam sendo descartadas pelos pais das crianças. Instaladas em linha reta na parede da galeria, elas parecem sempre mirar os mais fracos. Outras “arminhas” foram emolduradas junto com cápsulas de bala, criando a desconcertante série “Caixa de brinquedo”. Pow!

E se por um lado os parentes das crianças fazem questão de descartar estes “brinquedos” para que a polícia não os confunda com armas de verdade, por outro, sabemos dos casos em que moradores de comunidades segurando uma furadeira, um guarda-chuva e até um macaco hidráulico já foram confundidos com “pessoas armadas” e acabaram mortas pela polícia. “Ordinários” é a justaposição destes elementos, marcando crimes sem punição e demonstrando que o deslocamento de objetos cotidianos para contextos “especiais”, não é uma estratégia apenas da arte contemporânea.

Também fazem parte da exposição: “Se você está vendo isso já é tarde demais” – uma série de pipas produzidas uma a uma pelo artista com padrões geométricos coloridos e recortes de jornais, e o vídeo “Carne e agonia” – que apresenta testes de projéteis em gelatina balística enquanto, por meio das legendas, acompanhamos uma narrativa sem saber exatamente quem está falando: policiais ou criminosos?

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A violência está legitimada, tanto pelos sistemas políticos como pela mídia, gerando uma estranha capacidade de familiaridade com suas diversas representações em seus desdobramentos estéticos e ideológicos. Daí a potência de proposições artísticas como a de Igor Vidor que são articulações, que oferecem um espaço e um tempo capazes de gerar uma perspectiva mais complexa, para além da crítica. Assim como o uniforme escolar não é escudo, a arte pode nos tomar de assalto.

 

ludmilla

LUDIMILLA FONSECA é comunicóloga e jornalista formada pela Universidade Federal de Juiz de Fora (MG). Paralelamente, trabalha como curadora e produtora independente de projetos artísticos. Mineira, atualmente, reside no Rio de Janeiro, se dedicando aos estudos curatoriais e de história da arte. Especializada em storytelling, suas principais áreas de interesse são: arte contemporânea brasileira, semiótica e cinema.

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