Camila Vieira Crítica semanal

Artista, modernidade e burguesia

Inaugurei, no texto anterior, uma reflexão sobre a dita Arte Popular versus a dita Arte da Erudição, a partir da leitura crítica de Mário Pedrosa. Neste texto, procuro desenvolver um pouco do papel do artista dentro do Sistema que começamos a explorar no artigo passado, fazendo luz ao processo de deslegitimação da arte popular e da perda simbólica a qual as obras de arte foram submetidas, para que seu valor pudesse ser atribuído a um valor monetário. Mário Pedrosa atribui à modernidade o advento da separação conceitual entre arte popular e arte erudita, por conta do sistema burguês surgido após a Revolução Francesa. A definição que o crítico faz sobre a função do artista, é a de que o artista consiste, e sempre consistiu, num “ produtor de coisas não expressamente socializadas pelo mercado ou não para este diretamente produzidas”[1], o que, na categoria econômica proposta por Adam Smith, citado por Pedrosa, se enquadra na de  “trabalhador improdutivo”.

Historicamente, a obra de arte, enquanto objeto, nunca serviu a um interesse de natureza privada, devido ao seu caráter socializante, que é a difusão da mensagem através do seu conteúdo imagético. Com a modernidade e o nascimento da sociedade burguesa, contudo, a obra de arte  deixou de “existir em si” para assumir o caráter de um valor equivalente, porque “perdida sua identidade própria, esta não se exprime mais senão em relação a outra coisa”. Uma vez que a mensagem de poder contida na pintura passou à linguagem fotográfica e ao cinema, podendo ser mais facilmente difundida pelos meios de comunicação em massa, a pintura, especialmente a européia, pôde se libertar da figuração e absorver o “repertório metafísico ou religioso da civilização ocidental”. Foram os novos artistas, segundo o crítico, que revolucionaram a arte da época, por absorver, na sua própria produção, as representações imagéticas legadas pelas colônias, pois, assevera, o autor, que “arte moderna não foi produto puramente europeu. É uma arte que nasceu com o imperialismo”[2].

Nos primórdios da Modernidade, apesar de obra de arte ser cada vez mais absorvida pelo mercado burguês, enquanto produto de consumo, os artistas ainda assim puderam explorar essa “ experiência histórica-estética-cultural” com profundidade, legando, à humanidade, “obras de autêntico valor”, pois, segundo Mário Pedrosa, essa produção nasceu “ de uma experiência cultural” inédita, “fundada no isolamento deliberado dos elementos intrínsecos do fenômeno artístico”. Contudo, o isolamento legado por esse trabalho improdutivo[3] foi comprometido[4] uma vez que tudo o que se produz sob o Sistema Capitalista se transforma numa mercadoria. Decorre que, a partir do Capitalismo, a “ unidade originária”, da obra de arte, “ foi perdida”, bem como a sua “função social”. A apropriação da linguagem artística pela burguesia, inaugurou a “era do culto impessoal da forma”[5], não importando mais ao mercado se o artista “lhes é servil e intransigente defensor de seus valores ou se é contestador e denuncia seus vícios”. Pedrosa chega a afirmar que “o protesto”, inclusive, “ tem melhor cotação que a postura submissa”.

Uma vez alienado de seu trabalho improdutivo, o artista passa a ser “a plena encarnação do herói individualista” burguês, pois a fama, a presença de suas obras nos maiores museus do mundo e as cifras dos leilões, recalculam a rota  de sua linguagem criativa  para “a terra prometida do capitalismo”, que é o status social e a acumulação de bens.[6] Uma vez que sua produção não vem mais de sua liberdade criativa, porém do regulamento estético do Mercado de Arte,  subserviente ao gosto ditado pelos detentores do Capital, o artista corrompe ”suas preocupações estéticas a um puro jogo pueril de formas e naturezas-mortas[7]”. Advém deste fenômeno mercadológico, o que o crítico de arte norte-americano, Clement Greenberg, vai chamar de kitsch, tema que pretendo desenvolver mais adiante. Apenas num regime pós-capitalista, Pedrosa conclui, é que o “artista voltaria a ser um produtor independente e não mais alienado no seu próprio objeto”, pois a submissão da criatividade e do fazer artístico ao dinheiro, é o contrário do que exige “o exercício experimental da liberdade[8]”, que o fazer da  Arte é.

 

[1] Cf. PEDROSA, Mário. O bicho-da-seda na produção das artes. In: Arte: Ensaios. Organizado por Lorenzo Mammì. São Paulo: Cosac Naify, 2015.

[2] Cf. PEDROSA, Mário. Variações sem tema ou arte da retaguarda.In: Arte: Ensaios.

[3] O trabalho individual surge como tema recorrente nos textos críticos de Mário Pedrosa, a partir da leitura econômica de Marx, para quem o trabalho individual é uma categoria de trabalho que se desenvolve fora da lógica de alimentação e perpetuação do Capital. O trabalhador individual é um trabalhador que não está alienado do seu meio e produção e só o produz por necessidade.

[4] Cf. PEDROSA, Mário. Mundo em crise, homem em crise, arte em crise.In: Arte: Ensaios.

[5] Cf. PEDROSA, Mário. As tendências sociais da arte de Käthe Kollwitz. In: Arte: Ensaios.

[6] Cf. PEDROSA, Mário. Arte culta e arte popular. In: Arte: Ensaios.[7] Cf. PEDROSA, Mário. As tendências Sociais Da Arte De Käthe Kollwitz. In: Arte: Ensaios.

[8] Cf. PEDROSA, Mário. O bicho-da-seda na produção das artes. In: Arte: Ensaios.

 

camila

CAMILA VIEIRA é formada em Arte: História, Crítica e Curadoria, pela PUC SP, e atua como arte-educadora em instituições culturais. Realiza pesquisas acerca da educação não-formal e de processos curatoriais inclusivos. É autora do livro “A crise da Arte segundo Mário Pedrosa”.

2 comentários

  1. Hey! Achei os conceitos dispostos interessantes, mas, como complemente, diria que contribuiria muito a análise o uso da arte pela religião……..Umberto Eco, O nome da rosa, é um bom exemplo literário do assunto……….os Egípcios e sua grandeza sufocadora também me parecem relevantes………..de certa forma colocar o uso da arte como forma entorpecedora (ou direcionada, ou produto de consumo), assim como sua censura, não é uma invenção tão nova assim………….enfim, da maneira que você expõe me parece que até o que é chamado de Modernidade a arte era de algum jeito livre, espontânea, contestadora, quando me parece que não foi assim em nenhum período anterior ou posterior……………..as intenções mudam, mas a destruição de “aura” (no termo de Benjamim) é sempre a mesma…………

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  2. Caramba, o artista não tinha função para o mercado antes da revolução francesa? O que Botticelli fazia para os Médici e Michelangelo fazia para o papado romano? A arte não tinha função privada? Me pergunto o que Jean Fouquet pintou então ao invés do livro pessoal de rezas do duque de Burgundia…

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