Carolina Lopes Crítica semanal

Cadê você aki comigo?

Se me odeia deita na Br.

Junto ao texto, uma foto da artista carioca Aleta Valente deitada no asfalto, no meio da rua. Bem fofa.

Sob um avatar/alter-ego realista no Instagram, @ex_miss_febem se utiliza de um repertório vasto de signos altamente populares. Imagem. É através do poder e da circulação das imagens que a artista desenvolve seu trabalho. Diz: #Sextou e eu vo gastar os meus memes pq dinheiro que é bom nós não tem mesmo.

Uma extrema horizontalidade. Para além de seus trabalhos fora do aplicativo, Aleta realiza, através da capacidade democrática do meio que usa, o contato com o espectador na mais pura intimidade. Talvez, nunca se tenha imaginado a arte tão acessível. Passando o feed, que rola pela tela do celular, o acontecimento artístico possível. Quentin na cama, em pé no busão, cagando, mandando aquele arroz e feijão quente pra dentro, no meio de uma roda de gente chata pra caceta, ou em qualquer situação que o celular esteja à mão. Ela chega aí. Uma arte que está onde você está, é como você é, vem de uma pessoa como você.

Aleta, ali incorpora, junto às suas próprias experiências, a vida de várias mulheres. Usa os estigmas carregados pelo corpo feminino, para apontá-los, escrotizá-los, escrachá-los. Faz a gostosa. Faz a presidiária que dá a luz dentro de uma solitária. Faz a blogayrinha do subúrbio. Faz a carente. Faz a romântica. Nas fotos de casais, as mais zoadas, como adolescente, diz: Como eu queria estar com a pessoa q eu gosto.

Acima de tudo, Aleta expõe as fragilidades do circuito da arte. Artista, mulher, mãe solteira e suburbana, protesta: não há lugar de protagonista para ela. Da Z.O., expõe tudo. Fala do preço da carne, está no point das coxinhas, faz selfie no trem lotado. @ex_miss_febem é o meme da vida real. Enquanto expõe ‘vida real’, rindo (pra não chorar), expõe também: o que é arte? Arte é isso aqui ó.

Na velocidade da notícia, apropria-se do meme. A escrita abreviada, rápida. Na capacidade de rir de si mesmo. Beira o ridículo, no melhor sentido. Assim @ex_miss_febem acaba por se encaixar perfeitamente no papel da amiga que se segue no aplicativo. Ela é a garota do trabalho, a prima, a tia, a irmã. Cabe em qualquer papel, que se encaixe na vida real. Fala de maneira absolutamente compreensível. E a medida que inclui no trabalho artístico, pela linguagem, o absolutamente popular, inclui também neste lugar, seu público.

Em tempos de construção de brasilidade, tropicálias, antropofagias, parangolés, etc; os memes que Aleta compartilha provavelmente entrariam nesta panela. As piadas de Macunaíma rodando pelo Instagram. É uma atualização de brasilidade na arte  hoje. Tem a cara, a escrita, a fala, os assuntos. É #obrasilqueeuquero.

 

CAROLINA LOPES

CAROLINA LOPES, 32 anos, estuda História da Arte na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Fotógrafa e designer, também trabalhou como bolsista do professor Marcelo Campos na Casa França-Brasil, onde esteve mais perto das práticas curatoriais e artísticas. Nascida e criada em São Gonçalo, teve acesso tardio aos museus, cinemas, e espaços culturais; tendo sido completamente envolvida pelo universo da arte desde o primeiro contato.

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s