Crítica semanal Mayã Fernandes

“Quando você olha pra ela”: visibilidade lésbica nas artes

Agosto é considerado o mês da visibilidade lésbica. Em Brasília, a cena cultural busca trazer eventos e iniciativas que garantam a visibilidade para essas mulheres. Deste modo, no dia 31 de julho, para abrir caminho, ocorreu no espaço SESC Estação 504 sul, o sarau foi iniciativa da Quanta! e da Padê editorial. A Quanta! é uma plataforma que objetiva fortalecer artistas LBTs do Distrito Federal e Entorno. A Padê é uma editora dedicada à publicação artesanal de autoras negras e/ou LBTs, lésbicas, concebida pelas poetas tatiana nascimento (DF) y bárbara esmenia (SP). Com o financiamento do projeto do Fundo de Investimento Social – ELAS, a coleção Escrevivências visa publicar 44 livros de autoras lésbicas, bissexuais e travestis, sendo que 70% foram de mulheres negras.

O sarau contou com o lançamento de três livros da coleção Escrevivência das seguintes poetas: Cleudes Pessoa – 44 sentímentos, Kati Souto – escura.noite e Lélia de Castro – paragrafia 44.  Em paragrafia 44, a poeta Lélia de Castro indica 44 músicas que acompanham 44 poemas de leveza e intensidade. A temática presente é a de despedidas, expondo o lamento pelos relacionamentos que não deram certo, mas que transformaram-se em poemas.

No primeiro momento, a obra evidencia relacionamentos lésbicos. Linhas leves, retratam o rompimento dessas relações de modo singelo. Em segundo momento, não tão evidente, os poemas revelam o eu sob a perspectiva do elo com o outro. A subjetividade forma-se pela vivência de cada despedida e de cada novo encontro. Nas entrelinhas dos poemas percebe-se a ânsia de pertencer a si mesmo.  Essa vontade se revela por meio dos sentimentos narrados. O corpo sempre está em primeiro plano. A pele que sente e que grita. Na união e nos desencontros, o corpo permanece só e busca insaciavelmente se encontrar no meio das projeções do outro. A maneira encontrada foi a autoafirmação da própria existência. Paragrafia 44 expressa, acima de tudo, a solidão da sapatão que foge dos padrões heterosexistas.

No meio artístico, qualquer tipo de produção realizada por mulheres e/ou lésbicas é ofuscada ou possui seu mérito questionado. Deste modo, é ímpar a existência de iniciativas como a da Quanta! e da Padê, que visibilizam a produção de pessoas LBTs, permitindo a identificação do público com as autoras e possibilitando um cenário LGBT+ consolidado no Distrito Federal.

Padê Editorial
http://pade.lgbt/

Quanta!
https://www.facebook.com/mostraquanta/

 

maya


MAYÃ FERNANDES
 é formada em Filosofia pela UnB e atualmente é mestranda em Metafísica pela mesma instituição. É pesquisadora da Cátedra UNESCO Archai: Origens do pensamento Ocidental e editora da PHAINE: Revista de Estudos Sobre Antiguidade. Estuda a teoria do belo na antiguidade e escreve crítica de arte no site Linhas de fuga.

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