Candé Crítica semanal

HÉLIOCOCA I

Não estamos na era da Arte Horizontal, apesar de admirarmos o frescor das estruturas menos hierárquicas. Ressoa em nós os ideais da Democracia, seu sonho Republicano de uma Social Democracia Brasileira e, quem sabe aos mais otimistas, a expectativa política de construir no país um sistema com alguma noção de “Civilidade”. “Civilidade” esta de origens caucasianas, certamente. O sonho de uma Social Democracia à brasileira onde um Estado mediador de Cidadania intervenha pra tirar nosso país de um lodo de desigualdade que assola toda bela paisagem possível com a realidade crua da pobreza. Ela está em todo lugar como um carimbo de uso exagerado aos olhares elitistas. E este é o Olhar da Arte.

No século passado no Brasil vivemos uma Ditadura Militar com um histórico terrível que foi antagonizada por uma série de Movimentos Democráticos. Muito plurais, mas que, como em todo “mundo ocidental” no período, carregavam uma forte polarização via Guerra Fria entre Socialismos e Capitalismos. Ambos com forte arcabouço teórico liderando potências mundiais na promoção de todo um novo sistema planetário. Pesado. A realidade hoje é de um mundo dividido onde tanto capitalismo quanto socialismo sofreram profundas interferências um do outro. Antes de reivindicar vencedores da maior Guerra do Século XX, vivemos a geração que não sentiu no corpo nenhuma destas situações convivendo ao mesmo tempo com aqueles que experimentam o limite das macro teorias. Entender esse mundo é fundamental pra entendermos a atuação de nosso personagem da vez em nossa saga iconoclasta contemporânea: Hélio Oiticica.

“Tropicália”, “Parangolés”, “Cosmococas”… trabalhos do artista que avançava na reconfiguração de uma Arte Crítica ao Sistema de Arte elitista. Uma metodologia para desconstruir uma Arte Plutocrática sob a aurora de uma outra construção artística socialmente referenciada. Esse “socialmente referenciada” aqui está ligado aos Nortes societários de Esquerda brasileira à época. Uma Esquerda também limitada às vivências de um grupo com origem social e cor: branca, “pequeno burguesa”. Uma denúncia feita por inúmeros movimentos negros, periféricos ou de mulheres durante o século passado. Material fervilhante no livro “O Negro Revoltado” escrito por Abdias Nascimento com maestria. Hoje é uma certeza que os limites da política brasileira, burocrática e oligárquica, mura com estruturas sociais uma real Democracia Republicana. Já sabemos. E todos os partidos hoje, por exemplo, convivem com as denúncias de Racismo interno. Na época de Hélio, não era diferente (em vários aspectos, muito pior). Se o convite à Bateria da Mangueira, vetada de entrar no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro por Racismo, não deu certo para popularizar e implodir os Sistemas da Arte, sua posterior tentativa de entrar com uma obra de arte no MAM RJ que fosse referenciada na realidade brasileira não circunscrita às aspirações mercadológicas das elites rendeu uma ofensiva referência à realidade dos pobres brasileiros. Não é estranho hoje entendermos o comportamento abusivo de se apropriar do sofrimento alheio, o da realidade dos “oprimidos”, apreciando suas manifestações estéticas, mas bloqueando seus corpos.

Não, Hélio Oiticica não era um dos filhos da favela. Sua entrada nunca foi bloqueada em qualquer instituição de arte de seu tempo. Seu pai era um anarquista, professor e filósofo. Teve boa educação formal. Frequentava a favela por necessidade e por pesquisa. E a busca pela libertação dos pobres através da emancipação humana parece ser um discurso esvaziado com o tempo. E o “espírito” de Hélio celebrado qual Robin Hood, qual visionário salvador, qual gênio (a imagem preferida pelos compradores).  Esvaziado ou não, a História mostrou que a Artiarte de Oiticica foi insuficiente e o Mercado de Arte segue fulgurante no céu dos investidores.

Tropicália, sim, tem total relação com o movimento de 60. Manifesta a face da nova estética de vanguarda brasileira. Vanguardas nas Artes e na Sociedade é um conceito aceito com muita facilidade. A Arte como que movimentada por um grupo organizado, engajado, promotor de novos paradigmas. Mas o tempo é muito diverso. A ideia de vanguarda tem sido cada vez mais complexa. Por exemplo quando vemos que no mesmo período do Neo Concreto estava sendo articulado com agentes no Brasil e no exílio o Movimento Negro Unificado com suas propostas também inovadoras à Arte. Qual vanguarda é mais importante? Qual direcionou o espírito do tempo? Ambas (e muitas outras) são tão importantes quanto, com certeza.

Agora, quais as reais contribuições de Hélio? Será que conseguimos lhe fazer uma análise crua, sem pedestais, sobre seus limites? Continuamos semana que vem.

 

CANDÉ COSTA

CANDÉ é estudante de História da Arte e carioca da Zona Norte da cidade. Filho da Babilônia, transita por vários movimentos urbanos contemporâneos. Artista visual, curador da @Africanizze, coordenador do afoxé 2.0 da UFRJ e mochileiro old school.
Instagram @Africanizze | Facebook – Candé Costa http://www.cargocollective.com/candecosta

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