Crítica semanal Daniele Machado

Obra em obras – Texto 3

A priori, uma obra é um incômodo temporário que aponta para o futuro, promete um futuro. Algo que talvez possa se aproxima da expectativa em torno do desprazer freudiano que impulsiona pelo o fim de tal tensão com o gozo, o prazer, a finalização da obra. No entanto, uma promessa não tem de ser cumprida e aí fica a espera desagradável, que com o passar do tempo aumenta com a repetição dessa situação em outras experiências não concluídas. Talvez venha daí, uma compulsão a repetição desse ciclo de promessas não concluídas. Apesar do princípio de realidade, que alerta e tenta preparar quanto a não satisfação, se insiste em acreditar. E aí, ainda talvez, não possamos mais pensar sobre isso com o dualismo do princípio do prazer e o princípio da autoconservação, este que tende a diminuir a quantidade de excitação. Se pensamos em um Além do princípio do prazer, como Freud sinaliza em 1920, teríamos o conflito de uma pulsão de vida, que tende a reprodução, com uma pulsão de morte, que tende a destruição, ao retorno ao estado inorgânico. Enquanto a primeira se fizer mais forte, o organismo estará vivo. Caso contrário, temos a morte. Que viria muito mais do interior do próprio organismo, do seu envelhecimento, que de fatores externos. Teríamos como resultado disso uma compulsão a repetição de tais experiências desprazerosas, traumáticas, viveríamos em função das tensões, das expectativas, de um modo sádico. Repetição que se apresentaria dormindo em nossos sonhos ou mesmo acordados, na realidade.

Ora, por que a introdução quase chata de um freudismo para falar de obras? Apesar do crédito novo sempre resgatado para novas experiências, temos uma série de obras não concluídas, ou, quando se concluem, assim ocorrer de maneira que não atinge a satisfação. Assim, temos um conjunto de interrupções espalhados pela cidade, denunciando todos os outros casos anteriores não concluídos, que não saíram nem da fase inicial e que sustentam a tensão que compartilhamos, seja pelo desconforto gerado pelos engarrafamento e a série de desvios feitos pois não se pode circular pelas interrupções, seja porque não é belo, harmônico, por mais que tenha contrastes entre o projeto que seria atingido no fim da obra e a região ao redor, uma obra não terminada é mais incômodo que qualquer outra visão.

Tem um outro aspecto que gostaria de ressaltar sobre a obra. As disputas em torno de sua vida e sua morte. Com obras tão demoradas, que extrapolam às vezes em anos o prazo de conclusão, fica sempre a dúvida sobre estar em construção ou estar abandonada, ou ainda ter se tornado uma ruína antes mesmo que a construção houve finalizado. De outro lado, as obras finalizadas que não atingem a satisfação trazem pequenas denúncias do descaso. Vou dar um exemplo, que será melhor compreendido por quem viva na cidade do Rio de Janeiro. Duas obras, uma que cortou a cidade do Rio na periferia e outra que restringe a região central, respectivamente, o BRT e o VLT.

Ambos motivados pela realização de megaeventos na cidade, em especial, as Olimpíadas. O primeiro, passou por cima de muitas moradias, cujos donos não tinha direito de optar por não sair dali. Como é o caso que Guga Ferraz denuncia no trabalho Meia casa, meia vida (2015). A maquete do estado atual de uma casa partida ao meio, em que houve uma discordância sobre a venda da casa, solucionada com a sua divisão, restando a parte não vendida, para abrir passagem para o corredor do BRT. A vulnerabilidade da propriedade de pessoas pobres também pode ser encontrada nas casas de açúcar, vidro e carvão de Ana Hortides – a série O menor abrigo, respectivamente, #1 (2015),  #2 (2016) e #4 (2017). Houve alguns casos em que a mobilização de moradores enfrentou a fúria sem controle dos rasgos das obras para o BRT, como no caso da Praça Marechal Maurício Cardoso no bairro de Olaria. Hoje, as obras do BRT na Avenida Brasil estão suspensas.

No VLT, não teve moradias prejudicas (elas foram removidas bem antes para a construção das grandes vias de circulação do Centro da cidade ao longo do século passado. As obras também não estão concluídas e até poucos meses estavam suspensas. a tarifa para uso é de mesmo valor dos ônibus, para um percurso que pode ser percorrido à pé. Além disso, a destruição das casa, edifícios e igrejas para a construção das grandes avenidas no Centro não contou com o que sobreviveu nas camadas abaixo do nível da rua. E as obras do VLT, pouco fez diante da demanda por trabalhos arqueológicos, seja no resgate cuidadoso do material do solo (que, especialmente, traz esqueletos das pessoas escravizadas e sequestradas do continente africano), seja na conservação do material resgatado, o que descumpre o acordo entre a Prefeitura e a Unesco em função do reconhecimento do Cais do Valongo como patrimônio da humanidade. Por fim, o BRT, que extinguiu linhas de ônibus que percorriam o mesmo trajeto, tem o cotidiano de superlotação, de asfaltos cedidos e inseguros e de violência.

Essa análise experimental transferindo categorias freudianas de estudo sobre o indivíduo para as obras tem como objetivo testar possibilidades de como tal estado que venho chamando de ruína em construção afeta uma espécie de inconsciente coletivo. Como reagimos enquanto grupo, de pessoas que vivem na cidade do Rio de Janeiro, a tais intervenções cotidianas, como somos afetados por tais tensões, por tal precariedade. Esta, que sempre esteve tão presente em nossa história e imaginário, que se tornou regra. No desejo por estabilidade e certezas, da obra em obras aqui, a única que temos é a da promessa. Dessa forma as categorias tradicionais de real e ficção se confundem, pois algo que está em construção não pode também ser ruína. Viver entre ruínas é uma situação em que se associa um pós momento de destruição, temporário, passageiro. Como pensar uma vida em estado permanente de um cotidiano entre ruínas. A destruição causada por grandes guerras ou grandes manifestações naturais como terremotos e furacões, aqui há a manutenção do estado de destruição. E, ainda, rodeado dia a dia por tiroteios em toda a cidade, com um extermínio da população jovem negra.

Tal extermínio aponta que, apesar dos rodeios em torno das promessas, não haverá emancipação enquanto não houver, de fato, um fim das práticas racistas que estruturam nosso modo de ser país. Na disputa entre pulsão de vida e pulsão de morte, talvez esta última prevaleça e tenhamos que assumir o estado inorgânico, o abandono de tais obras. Porém, a questão é mais complexa. Não há uma definição de abandono, que atestaria a ruína antes mesmo da construção. Há apenas uma indefinição. Esta, por si só, altamente corrosiva. Como então abordar tal estado de ruína em construção? Não sei. Tais rodeios circulares, inconclusivos se encontram com uma das fotografias de Luiz Baltar Fluxos > paisagens sociais (2018) e que está em destaque neste texto, recheado de muitos talvez, suspeitas e incertezas.

Esse texto é o terceiro, parte de uma série sobre a curadoria da exposição Junho de 2013: cinco anos depois (em cartaz até 22 de setembro de 2018 no Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica), cujos anteriores podem ser conferidos abaixo.

Obra em obras – Texto 1

Obra em obras – Texto 2

dani

 

DANIELE MACHADO é Historiadora da Arte (UFRJ) e Mestranda em Estudos Contemporâneos das Artes (UFF) onde desenvolve a dissertação “Construtivismo Latino-Americano na Modernidade Periférica: Método Destrutivo, Ruína em Construção”. É Curadora do Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica e Diretora Geral da Revista Desvio.

 

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