Crítica semanal Ludimilla Fonseca

Boa tarde, como faço para cancelar minha assinatura?

Somos uma revista. Digital ou imprensa, mainstream ou independente – não vem ao caso. Somos um veículo de comunicação e por isso é tão importante que falemos sobre revistas, sobre ser uma revista e sobreviver enquanto revista.

Na última segunda-feira (6), o Grupo Abril anunciou o fechamento de diversos títulos, como Cosmopolitan, Elle, Boa Forma, Mundo Estranho e Arquitetura. Segundo o comunicado oficial, a empresa irá “concentrar seus recursos humanos e técnicos em suas marcas líderes”, entre as quais: Veja, Veja São Paulo, Exame e Claudia. O Grupo informou que estes títulos “somam audiência qualificada de 125 milhões de visitantes únicos por mês e 5,2 milhões de circulação nas versões impressa e digital por mês, além de centenas de eventos”. A Abril atribui o fechamento dos veículos ao seu “processo de reestruturação”. Gostando ou não e lendo ou não esses títulos, a notícia dos fechamentos foi um susto. E com eles, ao que tudo indica, cerca de 800 demissões. E a gente perde muito em termos culturais e de jornalismo especializado.

Para além do mercado editorial, as revistas são um dos produtos de comunicação mais extraordinários. Situam-se numa espécie de “zona franca”, na fronteira entre os jornais e os livros. Não têm a missão da profundidade literária destes últimos nem a obrigação da capacidade informativa de um jornal (embora inúmeros títulos o façam). Os bons veículos contêm a dose exata de produção, apuração, contextualização, opinião, design, imagem e publicidade. Poderíamos, então, dizer que são inúteis, dispensáveis, um luxo – o que nada mais é do que um elogio. Temos que elogiar, inclusive, o alto grau de segmentação das revistas: por assunto de interesse, preço, qualidade jornalística, nível de sensacionalismo e manipulação, valor de marca… Tem de tudo, para todo mundo.

As revistas são os veículos que combinam conteúdo informacional com um apelo fortemente visual.  A começar pelas capas: estar na capa quer dizer muita coisa, . A polêmica da semana, o furo do mês, a foto do ano. Tem ilustração, colagem, tipografia, editoração, criatividade e identidade gráfica. Grandes editorxs, grandes fotógrafxs, grandes designers e grandes colunistas estão por trás das páginas que viramos apressadamente antes da nossa consulta médica começar. As revistas têm personalidade forte, imagem de marca bem estabelecida e, sobretudo, se são especializadas, tornam-se referência obrigatória naquele segmento.

Óbvio que a adaptação é inevitável: quem não esticar para além das bancas/assinaturas e entrar nos celulares/newsletters não vai mesmo sobreviver. Mas uma coisa caminha lado-a-lado com a outra. A situação do Grupo Abril é notadamente um caso de esbanjamento, má administração, negócios de família escusos… Não é só porque “impresso não vende”. Até porque, digital também tem preço. No momento em que vocês estiverem lendo esta coluna, por exemplo, eu já terei esgotado o meu limite de leituras gratuitas do mês em todos os grandes jornais do país.

Seja como for, on ou off (mas, principalmente, off) não menosprezemos o papel cultural das revistas. Elas são registros sócio históricos fundamentais. E a trajetória do mercado editorial nacional nos traz alguns ensinamentos. Perceber a evolução do segmento editorial brasileiro acompanhado da transformação sociocultural do país é uma delas. Notar a segmentação dos títulos, a diversidade dos públicos e a conquista de leitores é fato desde o início.

A revista, enquanto mídia, caracteriza-se pelo “elitismo editorial”, seja nas versões semanais ou mensais, seus textos buscam elaborar interpretações a fim de esclarecer o público leitor sobre os fatos do cotidiano. Com isso, não se espera apenas peças factoides das revistas. Ao contrário, busca-se reverberações, relações, questionamentos, ilustrações, curadorias, cartas… Posicionamento.

E se por um lado é verdade que a lógica do mercado editorial absorve os movimentos sociais e culturais, também é fato de que os rearticula de acordo com seus interesses. Daí a importância das revistas independentes e das mídias online não hegemônicas. Ou seja, quando perdemos tantos títulos assim, de uma vez, perdemos espaço, perdemos voz, registros, articulações, arenas de discussão, diversidade de opiniões. Mais uma página em branco neste momento em que precisamos tanto rescrever nossa história.

 

ludmilla

LUDIMILLA FONSECA é comunicóloga e jornalista formada pela Universidade Federal de Juiz de Fora (MG). Paralelamente, trabalha como curadora e produtora independente de projetos artísticos. Mineira, atualmente, reside no Rio de Janeiro, se dedicando aos estudos curatoriais e de história da arte. Especializada em storytelling, suas principais áreas de interesse são: arte contemporânea brasileira, semiótica e cinema.

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