Camila Vieira Crítica semanal

Desdobramentos: Vanguarda e Kitsch

Para tratar, neste artigo, sobre o fundamento do que seria a “vanguarda” da arte na era da sociedade de consumo, usei novamente como norte um texto de Mário Pedrosa[1], no qual o autor caracteriza a “arte da retaguarda” como o desdobramento do progresso industrial e da sociedade burguesa, tema tratado nos dois artigos anteriores[2]. O crítico defende que a linguagem moderna foi uma linguagem surgida por causa do Imperialismo Europeu, moldada por jovens artistas que buscaram na imagética cultural das Colônias uma outra roupagem à arte que até então se produzia[3]. Essa produção vanguardista, para crítico, porém, encontrou seu esgotamento na Pop Art, primeira manifestação artística inteiramente alheia aos preceitos do movimento modernista, pois surgida de uma  expressão liberal e otimista da realidade social dominante, marco da Pós-Modernidade.

A partir do momento em que o artista passa a produzir Arte para o Mercado, com obras pensadas e regidas segundo a estética burguesa, mesmo da periferia do mundo, ele não se sente mais inibido por um cânone e, conflitado pela sociedade de consumo, ousa o que lhe passar pela cabeça. Pela primeira vez, em muito tempo, o artista, na pós-modernidade, pode experimentar o breve gosto do que Pedrosa chama de “exercício experimental da liberdade”. Contudo, se olharmos pelo viés que o crítico norte-americano, Clement Greenberg, delineia em seu ensaio “Vanguarda e kitsch”, essa nova produção ainda está dividida entre as “produzidas para a elite culta” e as  “manifestações destinadas ao público em geral, a massa”. Para Greenberg, a diferença essencial entre a arte Moderna, enquanto linguagem, da arte surgida pelo pensamento publicitário e industrial, é que enquanto a vanguarda representa a “experiência histórica genuína” e crítica, o kitsch é uma “representação não problemática e massificada da cultura, voltada para o entretenimento e para fins comerciais”.[4]

 Os artistas americanos da Pop Art: Oldenburg, Wesselmann, Andy Warhol e outros, recusavam, como nos lembra Mário Pedrosa, a qualquer espírito de hostilidade à civilização americana presente, afastando de sua produção qualquer signo  anticapitalista  ou  social libertário. A produção em série de alimentos enlatados e pré-prontos, os aparelhos domésticos e a propaganda da vida moderna, de certa forma, catalizaram uma crise sociológica para a família burguesa, que, pela primeira vez, experimentou dividir com as classes médias o mesmo tipo de refeição, divertimento e praticidade legados pela tecnologia. Com o surgimento da Pop Art, as ideias e os valores da classe dominante se comportam como se fossem os valores da sociedade como um todo, pois a classe que explora os meios de produção material, atua igualmente sobre os meios de produção intelectual, o que difunde como universal um valor que, a priori, é o valor desta mesma classe.

O Afastamento provocado pela divisão da Arte entre a Popular e Erudita, na era Moderna, a partir da pós-modernidade pode encontrar no Kitsch o adaptador necessário para que a linguagem artística fosse usada como ferramenta difusora do discurso hegemônico burguês. Convertida num aparelho ideológico, “como outra qualquer manifestação social, a arte é então corroída interiormente pelo determinismo histórico da luta entre os diversos grupos sociais”[5]. Ainda assim, mesmo contaminada pela hegemonia discursiva do poder, a posição de grupos divergentes e os valores da classe dominada podem circular por este mesmo campo. Deste modo, a respeito da Arte de Vanguarda, cabe ao artista produzir insumos para que sua obra seja um ponto de resistência à sua “instrumentalização” mesma, retomando aquela posição de “Arte revolucionária”, defendida por André Breton e Leon  Trotski, há 90 anos atrás[6].

 

[1] Cf. PEDROSA, Mário. Variações sem tema ou arte da retaguarda.

[2] Cf. VEIRA, Camila. Sobre o abuso da Arte Erudita. In: Revista Desvio. 2018.

[3] Cf. VEIRA, Camila. Artista, modernidade e  burguesia. In: Revista Desvio. 2018.

[4] GREENBERG, Clement. “Vanguarda & Kitsch”. Clement Greenberg e o debate crítico. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001, p. 37

[5]  PEDROSA, Mário. Variações sem tema ou arte da retaguarda. In: Arte: Ensaios. Organizado por Lorenzo Mammì. São Paulo: Cosac Naify, 2015:

[6] Cf. VIEIRA, Camila. E o mercado da arte? Como vai?. In: Revista Desvio. 2018.

 

camila

 

CAMILA VIEIRA é formada em Arte: História, Crítica e Curadoria, pela PUC SP, e atua como arte-educadora em instituições culturais. Realiza pesquisas acerca da educação não-formal e de processos curatoriais inclusivos. É autora do livro “A crise da Arte segundo Mário Pedrosa”.

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