Carolina Lopes Crítica semanal

Apressado come cru

pressa. uma sensação de pressa constante ocupa os espaços. numa liquidez absurda, toma espaços, reais e virtuais. toma tempo. toma os campos de atuação. toma os mercados, o trabalhos, o pensamento. afobação. faz-se. faz-se tudo e qualquer coisa. é como uma ordem pré-determinada: faça! uma palavra de ordem que vem de algum lugar, distante do ouvido que executa. talvez por isso, a falta de percepção de tamanha obediência. é como um telefone sem fio. posso me lembrar desde a infância, na escola, ouvir falar do encurtamento do tempo/espaço, por conta das tecnologias. lembro bem da palavra globalização. e lembro já fazer sentido tudo aquilo sobre o que falavam. em breve eu começaria também a correr. ansiedade. é evidente a emergência de tudo, de hoje, de agora. a gente fala disso, conversa sobre, se desespera, mas segue, com as pernas girando como papaléguas. emails, facebook, instagram, whatsapp, twitter, jobs, empregos, editais, produção, exposição, contatos, aberturas de exposições, divulgação da vida, produção acadêmica, leitura, pesquisa, projetos, auto-projeção, bolsas. como se tudo estivesse em uma esteira de ginástica, também a arte acompanha este fluxo ansioso. são cursos e mais cursos. novos artistas, novos curadores, novos espaços, novos teóricos, novos críticos. urgência. é um mesmo passo que se dá junto: enquanto o espaço da arte abre os acessos, um tanto quanto à força, também amontoa atores que, em um ano, fazem 30. de fato, há um grande grupo que exige seu lugar neste campo, e entra impacientemente. com razão. ainda também, é meio que uma corrida pela própria fatia da pizza. por outro lado, não há tempo para amadurecer qualquer ideia, qualquer projeto. uma sensação de que tudo o que é novo está ainda verde. não há tempo para desenvolver qualquer pensamento, para imergir em qualquer pesquisa. não há tempo para o ócio. não há tempo para vadiar. não há tempo para a improdução. alvoroço. para além do alargamento dos acessos, há também que se pensar sobre a firmeza dos trabalhos, das exposições, dos textos e discursos. os acessos de ambos os lados, apressados, podem perder algo pelo caminho. os contatos podem se dar em um ambiente aparentemente acabado, mas na textura mole que há nos processos. não digo com isso, que não deva haver tanto, em tão pouco tempo. mas que é preciso tolerância para os próprios processos. parar. se lá na infância, já bem sabia que não seria mais possível parar e, ainda sim, continuar a fazer parte. hoje, o que para, está absolutamente fora. são seguidores, mercado, compradores, galerias, museus, mídia. ávidos pela novidade, que envelhece instantâneamente. esgotamento. para além dos trabalhos artísticos, não há corpo, não há cabeça que suporte tão grande sucção de energias. foi próximo ao fim da vida, que lygia clark chegou ao ponto ápice de sua poética. amilcar de castro passou a vida aplicando somente duas ações em seus trabalhos, corte e dobra. brígida baltar passou uma década para então finalizar a “coleta da neblina”. Talvez a arte também esteja intimamente atrelada à paciência e insistência. Talvez também seja o contrafluxo da produtividade capitalista. Talvez seja o acesso ao fora de tempo e fora de espaço. Também sem tempo é que esse texto vem: uma escrita rápida por conta de um prazo. Ideia ainda crua.

Banana verde não tem doce. Comida crua é insossa. Correr na esteira não leva a lugar algum.

 

CAROLINA LOPES

CAROLINA LOPES, 32 anos, estuda História da Arte na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Fotógrafa e designer, também trabalhou como bolsista do professor Marcelo Campos na Casa França-Brasil, onde esteve mais perto das práticas curatoriais e artísticas. Nascida e criada em São Gonçalo, teve acesso tardio aos museus, cinemas, e espaços culturais; tendo sido completamente envolvida pelo universo da arte desde o primeiro contato.

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