Crítica semanal Mayã Fernandes

Alice Lara e a ars erótica entre o humano e o animal

No dia 07/08 ocorreu o lançamento da 3ª edição do Transborda Brasília – Prêmio de Arte Contemporânea, que possui duração de 08/08 a 07/10. A exposição de artes visuais conta com 12 artistas indicados ao prêmio, que residem, produzem ou nasceram em Brasília, cidades satélites ou entorno.

Alice Lara, uma das indicadas, em seu trabalho possibilita ao espectador entender o caráter metafórico da relação entre animais humanos e não-humanos. Com o foco na animalidade, suas obras oscilam entre a violência explícita e a violência velada. Exemplo disso são as obras da série Resistência.

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 Na sequência, Alice transforma animais comumente lidos como domésticos, como é o caso da tela Cachorros e veados, em animais selvagens. O cachorro, surpreendentemente, torna-se algoz do animal selvagem. Na tela, a masculinidade está presente na matilha. Emboscando o veado, os algozes dilaceram a presa, emanando exibicionismo e esbanjamento de satisfação.

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 Já na obra Búfalos e Siouxies, o caráter animalesco é posto em dúvida ao olhar os olhos dos animais. O espectador, ao encarar esses olhos, pode perceber a ambiguidade da fuga. Nas obras da série, Alice dispõe linhas que mostram precisão e consciência das pinceladas ríspidas, revelando a pujança de sentimentos postos na imagem. Há, de um extremo a outro, a hesitação sendo elaborada na tela.  A ambiguidade demonstra o jogo dúbio da fuga. Por um lado, ao partir, a vontade oscila entre permanecer só e ser acompanhado. O olhar pode demonstrar a solidão. Não se sabe se a manada satisfaz o desejo. O olhar do filhote ao fundo é de desamparo e parece esboçar um desejo de também querer partir.

Lara nos coloca enquanto algoz ou presa, Búfalo ou manada. E todos os caminhos levam ao mesmo lugar: a ars erótica de ser desejante ou desejado.

 

maya


MAYÃ FERNANDES
 é formada em Filosofia pela UnB e atualmente é mestranda em Metafísica pela mesma instituição. É pesquisadora da Cátedra UNESCO Archai: Origens do pensamento Ocidental e editora da PHAINE: Revista de Estudos Sobre Antiguidade. Estuda a teoria do belo na antiguidade e escreve crítica de arte no site Linhas de fuga.

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