Candé Crítica semanal

Afinando minha “Voz de Branco”

Todos já sentiram o peso do mercado contemporâneo sobre nossos corpos. Nossa aparência é recebida com olhares tendenciosos. Uma tatuagem pode ser uma decisão martirizante dependendo de sua área de atuação. Além de nossa cultura ser cheia de negação. Julga, mas não assume.

Estava numa palestra tipo motivacional corporativa essa semana. Sim… eu fui. Nada sobre Teoria da Arte, foi muito divertida. Vânia Ferrari, citou “Comunicação Não Violenta” do Marshall Rosenberg. É um livro mais prático que teórico. Sobre como nossa comunicação é constante sistema de manipulação e desvio da expressão de nossas próprias vontades. Apresenta barreiras na própria língua, nas palavras e expressões, que limitam nosso próprio discernimento sobre nossas próprias sensações. O livro tem um sistema de “guia” e apresenta uma proposta de nova verbalização franca e direta como meio de administrar violências. Uma forma de ver a violência cotidiana brasileira em expressões populares. Nas opressões veladas? Sim. E mais além. Numa forma de violência contemporânea pandêmica. Algo além das guerras e genocídios urbanos. Uma violência transpessoal em redes de poder e abuso onde opressões operam apenas como mais um dos núcleos de tensão.

Rolou o lançamento de “Sorry to Bother You” (2018) dirigido pelo Boots Riley. Nele um cara que vive na garagem do tio arruma um emprego de telemarketing. A questão é que ele recebe como dica para aumentar as vendas fazer ao telefone uma “Voz de Branco”. Lakeith Stanfield, o ator que faz esse “cara”, é um homem negro cis. A dica vem de Danny Gloover. E imediatamente ele faz essa voz e emplaca muitas vendas. Emplaca vendas e vai do porão da empresa como vendedor de enciclopédias até um consultor de mercado no topo do edifício. Enquanto isso, seus companheiros de trabalho permanecem em situação desfavorável. Mas quando organizam uma greve é que esse “cara” se vê em cheque. Furar ou não a greve? Boots Riley é um socialista estadunidense. Socialismos próximos aos Movimentos Negros estadunidenses no Partido dos Panteras Negras assim como tem relações fundamentais com o Movimento Negro Unificado brasileiro. Mas estas vinculações ou interpretações sobre socialismo eram repletas de reivindicações para que direitos assegurados apenas às pessoas brancas fossem garantidos a todos sem distinção. Socialismo era o movimento societário que minimamente defendia uma mínima responsabilidade social. Já em desconstruir estruturas de controle racial… não. As Revoluções Socialistas, com foco nas americanas, não foram amigas dos negros. Em Cuba, Terreiros de Candomblé foram destruídos e líderes espirituais deportados. Kabenguele Munanga é um dos que relatam, assim como Assata Shakur, a tensão interna entre o ativismo ideológico típico socialista europeu e a luta por igualdade racial americana. Parece que Direita e Esquerda no século XX sempre se opuseram à igualdade. Mas as doutrinas ideológicas parecem cada vez mais terem se diluído em narrativas de múltiplos protagonistas. Temos hoje uma rede de influências cada vez mais vigorosa. Mas não podemos dizer que é uma zona livre. Pelo contrário, a internet hoje, como a tv antes, é estruturada para garantir a venda. Os privilégios continuam plenos, cheios de viço!

FOTO03Afinando minha “Voz de Branco”.

Estamos atentos ao Caso Inhotim onde a lista de crimes de Bernardo Paz só aumenta. O Idealizador de Inhotim, envolvido em casos de grilagem, trabalho escravo e lavagem de dinheiro, teve de entregar, como pagamento de dívidas sonegadas ao governo, 20 obras de arte para tapar os cem milhões de reais de rombo aos cofres públicos. E o melhor de tudo é, que mesmo com todo seu histórico e das obras serem pagamento ao governo, ele convence o Ministério da Cultura a deixá-las em seus museus… em Inhotim, mesmo. Bernardo paga o que deve, mas só se o dinheiro ficar no bolso dele. Os abusos da elite brasileira e os desmandos no mercado de arte são uma vergonha. É um tempo onde arte e mercado precisam ser pensados profundamente. Privilégios, crimes e desmandos. Sistemas e avaliações obscuras, arbitrárias, que orientam as vultuosas quantias de dinheiro. Novas redes precisam ser produzidas e podemos reconduzir fluxos.

FOTO02Afinando minha “Voz de Branco”.

No filme, nada muda? Apenas a história de um personagem sem facilidades alçando sucesso profissional em detrimento de suas relações de amizade. Mais uma história vista pelo ponto de vista das exceções. Talvez uma representação secundária, mas intencional, da realidade americana. Será que poderíamos questionar a ascenção de uma pessoa oprimida ao poder? Será esta apenas uma forma de controlar grupos através dos sistemas meritocráticos? “Sorry to Bother You” é um desvio na narrativa do negro vencedor. A tentativa de representar uma realidade dinâmica, complexa, e lotada de interesses. E pra subir na vida a regra é só embranquecer… Mas sem comentar sobre isso.

 

 

CANDÉ COSTA

CANDÉ é estudante de História da Arte e carioca da Zona Norte da cidade. Filho da Babilônia, transita por vários movimentos urbanos contemporâneos. Artista visual, curador da @Africanizze, coordenador do afoxé 2.0 da UFRJ e mochileiro old school.
Instagram @Africanizze | Facebook – Candé Costa http://www.cargocollective.com/candecosta

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