Crítica semanal Daniele Machado

Obra em obras – Texto 4, Arte é pra qualquer um

Isso está didático demais

Isso está panfletário demais

Isso está popular demais

Que medo podemos ter nas artes quanto a tais adjetivos? Às vezes parece que esses resquícios de um ideal moderno, a arte exclusiva às suas linguagens, que segue independente da realidade, que é movida somente pelos interesses que lhe competem, soa como um fantasma que nos assombra. Vez ou outra escuto tais frases, pendendo um tom pejorativo e, pois bem, não consigo ver como algo didático, panfletário ou popular pode ser ameaçador. Talvez seja mesmo, a quem interessa que a arte seja dos especialistas, intocável, apenas passível de ser contemplada.

Bem, fico feliz de muitos colegas não compartilharem dessa postura. O texto de hoje é parte de uma série que pode ser acessada no fim desta página, que parte do trabalho da artista Camilla Braga, Obra em obras que é o ponto irradiador para os núcleos curatoriais da exposição Junho de 2013: cinco anos depois. O conjunto de trabalhos que compõe a mostra possui um cunho político muito presente e é sobre isso que pretendo refletir aqui neste texto. Sobre com frequência ouvir de pessoas que acompanham o trabalho curatorial do Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica que se trata de uma curadoria muito política. Não acho esse termo pejorativo, assim como os demais citados acima. Mas acho necessário serem feitos alguns apontamentos sobre esta palavra e vou fazer neste momento a partir da exposição que abordo nesta série de textos.

Carimbado, Autorizado (2017) é um trabalho da artista Carine Caz que faz uma aproximação entre o valor simbólico visto como inerente a arte e o mesmo, nem não inerente assim, ao Estado e suas instituições. Está em destaque no início desta crítica e também é a capa da quarta edição da Revista Desvio. Quem legitima um carimbo? Todos que fazem um acordo para reconhecê-lo em determinada função. Beira o tosco falando dessa forma, mas é quase isso mesmo. Fazemos um pacto social que institui um poder sobre um pouco de tinta em determinado formato sobre um papel. E vice-versa, também fazemos isso na arte. O didático, panfletário ou popular é ruim até que alguém que possua notoriedade, a ponto de não despertar oposições, diga que é bom. É um mecanismo que também funciona na série de bucetas carimbadas de Beatriz Lohana (2017).

Quando mencionamos o termo política não se trata exclusivamente dos cargos eleitos em nossa atual fajuta democracia, se trata também das microrrelações e hierarquias que se estabelecem entre um e outro indivíduo, entre um e outro grupo. Carine aborda política sobre grupos, Beatriz sobre indivíduos, a parti dela em especial, é a sua própria buceta a matriz desse conjunto de gravuras.

As placas de bronze de Ivan Grilo também são parte desse grupo. Tempos difíceis (2015) e Amanhã será maior (2016) são placas como são as que indicam comportamentos para se locomover na cidade. Aqui são indícios, avisos para quem estiver desavisado, imerso na rotina sufocante para vender sua mão-de-obra. O bronze, material nobre que é utilizado para compor monumentos que também intentam orientar sobre o que é a nossa história, o que nos define como povo, torna nobre também outras histórias que não se tornarão monumentos públicos.

Os gestos de autolegitimação do Estado aqui são revirados para falar sobre a narrativa própria de indivíduos e de grupos, que seguem a margem da história oficial que forja um passado único comum.

Encerro o texto com a instalação de Davi Marcos que ocupa a rua ao lado das galerias da exposição. Às vésperas da Copa do Mundo estávamos ainda esperançosos em superar o vexame de 2014, fitilhos vermelhos contrastavam com o verde e amarelo que enfeitava as ruas, ainda que de forma tímida. Um vermelho que pode ser lido na disputa vermelho PT x verde e amareço antiPT. Um vermelho que pode denunciar os litros de sangue derramados todos os dias na cidade na guerra civil que vivemos, em contraste com o clima de festa de agora ou de 2014. Um vermelho que também celebrava a vida e a arte, que desperta o desejo de interagir, de abrir os braços e passar por entre as fitas, sentindo uma sensação diferente. Uma sensação diferente é o que a arte faz com a gente. Qual é a ofensa em uma leitura que diz que vermelho pode ser isso ou aquilo? Qual a ofensa de simplesmente ver apenas vermelho, desejando somente passar por entre as fitas? Ter essa sensação diferentes. Arte é para todos, ou pelo menos deveria ser. Todos que quiserem. A mim não importa a leitura simples ou complexa que fizer. O que importa é nos encontrarmos, trocarmos, verbal, gestualmente ou em silêncio. Arte não é pra gente inteligente. Arte é pra qualquer um. A foto da instalação não é formal, ela foi tirada em meio a farra. Arte também pode divertir. Arte também ser entretenimento. E quanto mais é didática, panfletária, popular, mais é política. Arte com função social.

Obra em obras – Texto 1

Obra em obras – Texto 2

Obra em obras – Texto 3

dani

 

DANIELE MACHADO é Historiadora da Arte (UFRJ) e Mestranda em Estudos Contemporâneos das Artes (UFF) onde desenvolve a dissertação “Construtivismo Latino-Americano na Modernidade Periférica: Método Destrutivo, Ruína em Construção”. É Curadora do Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica e Diretora Geral da Revista Desvio.

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