Crítica semanal Ludimilla Fonseca

Notas Olfativas

No princípio não era o verbo. Era o cheiro. A percepção químico-olfativa foi a primeira ferramenta de comunicação usada pelas formas de vida que começaram a aparecer na Terra. Os dispositivos olfativos eram (e continuam sendo) meios para a alimentação, a proteção e a reprodução. Os cheiros são usados initerruptamente, de modo consciente ou inconsciente, seja entre plantas e animais ou seres humanos. Eles são um componente crucial na nossa existência: nos envolvem o tempo todo e, mesmo quando dormimos, cheiramos. Razões históricas, sociológicas e religiosas levaram o ser humano contemporâneo a praticamente ignorar o olfato. Mas uma atenção e uma compreensão mais profundas sobre este sentido nos tornariam mais conscientes sobre nossas possibilidades perceptivas e comunicativas. E, claro, sobre nossas possibilidades artísticas.

Em 1916, o (relativamente desconhecido) artista italiano Ennio Valentinelli publicou o Manifesto “Arte degli Odori” (Arte dos Cheiros). Participante do movimento futurista, no começo do documento ele escreveu: “nos esquecemos como cheirar; precisamos refinar nossas narinas”.  Mas poucos artistas do modernismo se relacionaram com o que hoje convencionou-se chamar de arte olfativa. O maior exemplo neste espectro é, sem dúvidas, Marcel Duchamp. Uma de suas primeiras experiências foi na “Exposição Surrealista” de 1938 em Paris, onde uma instalação encheu o ar com o aroma de café torrado.

Marcel Duchamp_Rose Selavy_Belle Haleine_Eau de Violette_1921
Marcel Duchamp/Rrose Selavy, Belle Haleine – Eau de Violette, 1921

Desde então, uma variedade considerável de artistas tem contribuído para o crescimento do léxico da arte olfativa: Smell Chess de Takako Saito, nos anos 60; Menstruation Bathroom de Judy Chicago e Earth Room de Walter De Maria nos anos 70; Olivestone de Joseph Beuys e 20:50 de Richard Wilson nos anos oitenta; Mattresses and Cakes de Nancy Rubins e A Thousand Years de Damien Hirst nos anos noventa; os experimentos científico-artísticos de Sissel Tolaas e Maki Ueda nos anos 2000. No Brasil, há vários exemplos também: do power trio Pape, Clark e Oiticica, passando por José Ronaldo Lima, Cildo Meirelles, Josely Carvalho, Ernesto Neto… Apenas para citar os mais conhecidos.

sissel tolaas
Sissel Tolaas – Berlin, City Smell Research, 2004

Com a digitalização das imagens e dos sons, o olfato está se tornando um dos últimos bastiões da materialidade em uma era de globalização imaterial. A atual impossibilidade de digitalizar os cheiros, faz com que eles sejam um dos poucos aspectos das obras de arte que ainda demanda a presença física de seu público para vivenciá-lo. Sendo assim, o olfato está emergindo como um amplo campo de experimentações frente à incorporação de questões sobre a experiência, o corpo, a memória e os afetos na produção de exposições.

Com a virada do milênio, houve um boom na produção de arte olfativa em todo o mundo. Por um lado, isso pode ser graças à miríade de novas possibilidades geradas pelos avanços técnico-científicos; por outro lado, isso poderia ser atribuído à sensação de isolamento e desincorporação trazida à nossa experiência vivida por essas mesmas mudanças tecnológicas. Há algo de primitivo e, ao mesmo tempo, vanguardista sobre as explorações artísticas em torno do olfato. Essa conversa está penas começando.

 

ludmilla

LUDIMILLA FONSECA é comunicóloga e jornalista formada pela Universidade Federal de Juiz de Fora (MG). Paralelamente, trabalha como curadora e produtora independente de projetos artísticos. Mineira, atualmente, reside no Rio de Janeiro, se dedicando aos estudos curatoriais e de história da arte. Especializada em storytelling, suas principais áreas de interesse são: arte contemporânea brasileira, semiótica e cinema.

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