Camila Vieira Crítica semanal

Arte como artefato: considerações sobre a arte indígena

No artigo de hoje revisitei uma preocupação conceitual que abarca, por um outro viés, aquela relação entre artesão e artista, que destrinchei em alguns dos artigos anteriores. Obviamente que não sou grande estudiosa da produção simbólica indígena, contudo, creio que é importante, enquanto crítica que tento ser, procurar responder a algumas questões referentes à essa produção artística ainda não absorvida como “Obra de Arte” pelo Mercado, mas vista como um objeto cultural digno de estudo, conservação e exibição. Quero inaugurar este parágrafo com uma anedota, escrita por Lévi-Strauss em seu Tristes Trópicos, que, prestes a viajar para o Brasil, em 1934, escreveu ter perguntado ao embaixador brasileiro da época como deveria proceder numa comunidade indígena, caso os visitasse;“Índios? Infelizmente, prezado cavalheiro, lá se vão anos que eles desapareceram (…). O senhor vai descobrir no Brasil coisas apaixonantes, mas nos índios, não pense mais, não encontrará nenhum único”, foi a resposta do então embaixador.

Trouxe esta parábola para fazer pensar que, se por um lado reconhecemos plenamente não só a existência dos povos nativos brasileiros, como o seu legítimo direito pela terra e pela liberdade, por outro pode ser obscuro a alguns de nós que os direitos humanos dos povos nativos apenas muito recentemente vigorou, pois apenas em 1988, na Constituição Cidadã, é que o indígena foi citado enquanto sujeito pleno de direitos. Do lado das artes ainda há certa dificuldade em tirar os objetos produzidos por tribos dos museus históricos, pois apresentam culturalmente padrões e crenças cujos motes não se enquadram no que a sociedade ocidental entende por “Obra de arte”. Talvez a dificuldade em se debater sobre a Arte produzida dentro de uma comunidade indígena, se dê pelo fato de que neste tipo de produção não há diferenciação entre estética e usufruto.

Outra distinção primordial reside o fato de que não há, para o indígena, a figura do artista, muito menos o status de gênio, como a priori entendemos, de um sujeito que se afasta da sociedade e, intercalando questões objetivas e subjetivas, transforma a matéria na concretização dessa reflexão. Rememorando o trabalho individual, caracterizado por Marx, a produção das obras de Arte indígenas se aproximam bastante daquela produção pré-capitalista, no qual o objeto só é produzido a partir da necessidade de produzi-lo. Na sociedade indígena (vou usar o termo por falta de um mais adequado), além do objeto em questão não ser destinado à alimentação do mercado, ainda há o fato de que absolutamente todos podem conceber os artefatos. Se um padrão for muito bem feito, destacando o objeto ou a pintura da produção dos demais, é sinal de que o sujeito que o produziu apenas tem uma recepção maior da energia criativa consagrada pelos deuses, energias que estão disponíveis para todo e qualquer ser-humano[1].

Se procurarmos um norte nos escritos de Arthur Danto, poderemos considerar um objeto de arte é aquele que dialoga com a história da mesma. A Arte indígena,  neste caso, tem a ver com os significados que abarcaram aquela produção, de modo que se o objeto expressa o zeitgeist – espírito do tempo- , ou o Kulturgeist – espírito do povo- , ele pode ser considerado como obra de arte por apreender dentro de si questões culturais e imateriais que não presentes num objeto qualquer. A preocupação estilística desse tipo de produção perpassa a materialidade do objeto e seu significado imediato dentro da sociedade. O pressuposto pelo qual o objeto foi feito surge no princípio do tempo, na criação do mundo e, para tanto, a cópia não é mero esboço, é o contato direto com a divindade e com a energia imaterial do mundo dos espíritos naturais[2]. A compreensão do valor que o indígena atribui à sua obra, portanto, conduz a sociedade moderna, construída a partir da história traçada pelo Antigo Mundo, a apreender novos horizontes antropológicos e artísticos, além de reconfigurar a visão historicista que exclui narrativas de seu contexto.

[1] LAGROU, E. Arte ou artefato? Agência e significado nas artes indígenas: IN: Proa- Revista de Antropologia e Arte (on-line). Ano 02, vol. 01, n. 02, nov. 2010. Disponível em: http://www.ifch.unicamp.br, acesso em: 9 nov. 2014.

[2] GORDON, César. Nossas Utopias não são as Deles: os Menbengrokre e o Mundo dos Brancos. Revista sexta-feira, n. 6, 2001

camila

 

CAMILA VIEIRA é formada em Arte: História, Crítica e Curadoria, pela PUC SP, e atua como arte-educadora em instituições culturais. Realiza pesquisas acerca da educação não-formal e de processos curatoriais inclusivos. É autora do livro “A crise da Arte segundo Mário Pedrosa”.

 

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