Carolina Lopes Crítica semanal

Boas novas

Vinte artistas se formando, pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, certamente à muito custo. Entre os vinte artistas, dezesseis mulheres. É com custo maior ainda que, agora, torna-se possível enxergar, em uma exposição como esta, um futuro em que mulheres protagonizam as salas de arte.

Uma parede inteira, grande, sustenta matérias de jornais. Em todas as matérias, mulheres. De longe se vê, em uma das matérias, a foto de Marielle Franco, vereadora carioca, assassinada à tiros. Faço as contas: o motivo pelo qual aquelas mulheres estão ali é a morte que as une. ‘’A cada duas horas”, de Mariana Morais, duramente faz lembrar o que, pra nós mulheres, é uma cautela constante: todas estamos mais sujeitas ao assassinato, somente por sermos mulheres. Aproximando-se, Mariana, num gesto delicado e carinhoso, dá a estas mulheres dignidade no modo como vêm à público. Como a Lindonéia de Rubens Gerchman, estas mulheres, deixam de ser anônimas, no momento de sua morte absurda. Mariana cria, de maneira fantástica e poética, pequenas narrativas. Transforma-as em personagens de um conto desejado. Uma esperança forjada, de que assim fossem noticiadas. Sem romantizar a violência ali contida, a artista apaga as palavras com borracha, violentando também a matéria do jornal. Preserva somente as letras e palavras que, formando um desenho, também se unem para formar seus contos.

Em um corredor, ouve-se som dos dois lados. Estou no meio. Cada lado um vídeo. Apresentam, juntamente e separadamente, maneiras de lidar exatamente com este espaço: o corredor. Com “No meu canto”, Caroline Faria coloca o espectador na mesma condição que a sua. Instiga a experimentar este lugar. Não é aqui, não é lá. É só o lugar de intermédio, a fronteira entre um cômodo e outro. Uma via expressa por onde se passa rápido, sem se olhar atentamente. Ela realiza o lugar com olhos — filma todos os detalhes do corredor. Realiza com o corpo — toca, empurra, balança e ocupa. Realiza com os pontos de vista — propõe no vídeo recortes absolutamente curiosos. Uma expedição cuidadosa pelo lugar não lugar.

Removedores de maquiagem. Carregados de rastros do véu que cobriu um rosto. Esticados, na parede, lado a lado: juntos, formam o calendário de um mês. Era o “Autorretrato do mês de maio”, de Mariana Vilanova. Ali, no peso do material que se aplica no rosto, feminino, fica claro: é o peso do ‘dever ser sempre bela’ que mulher sustenta. Como a Vênus de Botticelli, todas as mulheres, materializam a ideia de beleza hoje. Naqueles lencos, a necessidade diária de se moldar.

Entre os três trabalhos vê-se claramente o ponto comum: uma comunidade de mulheres que partilham, igualmente, de ameaças, pesos e sobrepesos, limitações. Entretanto, soa forte, tanto quanto o burburinho de todas as falas que ali tiveram espaço, a unicidade do coro. Sao mãos dadas, olhos para frente, bocas abertas, de onde só sai. Apesar do tom grave, porque assuntos graves, ouvi ali, na exposição dos artistas formandos, boas novas.

CAROLINA LOPES

CAROLINA LOPES, 32 anos, estuda História da Arte na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Fotógrafa e designer, também trabalhou como bolsista do professor Marcelo Campos na Casa França-Brasil, onde esteve mais perto das práticas curatoriais e artísticas. Nascida e criada em São Gonçalo, teve acesso tardio aos museus, cinemas, e espaços culturais; tendo sido completamente envolvida pelo universo da arte desde o primeiro contato.

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s