Crítica semanal Daniele Machado

Obra em obras – Texto final: Protagonistas de história nenhuma

Ontem tive o prazer de almoçar com o meu pai. Falamos sobre a minha pesquisa do mestrado. Ele disse umas coisas interessantíssimas. Quando cheguei em casa de noite me veio esse “flash”, das coisas que ele falou. Lembro que era algo sobre Freud, luto, princípio do prazer… Não me lembrei de jeito nenhum. Será que deveria ter parado tudo em um almoço descontraído para anotar?

Nunca. Apertei essa opção ontem quando o whatsapp perguntou sobre fazer backup das mensagens, se sim, com qual regularidade. Apertei com um aperto consciência. Ridículo, não? É cada coisa que essa coisa toda virtual traz pra gente. Que risco tão grande eu teria em optar por perder todas as mensagens? Essa compulsão de arquivos que a gente nunca mais vê depois. São tantos, que selecionar, ou até mesmo curar, se torna impossível.

Esse confronto entre as nuvens virtuais e a possibilidade imensa de poder arquivar tudo de um lado, e de outro, a impossibilidade de lidar com tamanha quantidade de arquivos, me parece trazer uma emergência que aponta para refletir sobre como fazer história da arte, como fazer memória. Nesta última, venho refletindo coletivamente no processo do projeto Provisório Permanente, mas falarei melhor disso na próxima semana. Hoje vou falar sobre essa questão na arte especialmente, em seus desdobramentos críticos, curatoriais e historiográficos. Comecei algo em torno disso no texto Pequenas histórias das artes. E isso será feito a partir da exposição Junho de 2013: cinco anos depois em cartaz até 22 de setembro, do qual sou curadora junto a um time maravilhoso. Portanto, esse conjunto de textos sobre a exposição, que se encerra hoje, está no limite entre uma crítica e uma defesa curatorial.

O texto se encerra como a exposição faz: esquecendo. Esquecer soa como uma falha. Nas sessões de autoajuda nas livrarias tem vários livros sobre como aperfeiçoar a capacidade de armazenamento. Nas farmácias há drogas de todo tipo para corrigir tal imperfeição. Uma história da arte dentro da universidade, tida como uma ciência humana, não poderia admitir uma falha tão grave como esquecer. As provas documentais são o norte para corrigir tal erro. Fazer uma grande história é a outra forma de corrigir. Já que iremos esquecer que seja selecionado o que tem prioridade na constituição de nossa identidade nacional artística e cultural.

Por sorte, temos na própria ciência legítima, essa experimental, de raízes iluministas, que dia-a-dia nos indica como tece as ficções nas quais nos apegamos para viver. Ovo, café, açúcar, sal, hormônio, glúten, carne. Dia sim, dia não temos novas estatística dos especialistas comprovando que, em suma, vamos morrer. Porque não é outra a conclusão possível de se chegar, somos jogados de um lado para o outro dentro de tais ficções científicas. A solução? Fazer exames, muitos, específicos. Fazer girar a roda da indústria da saúde, pagando plano de saúde e esperando pacientemente por cada dia nessa rotina insana. E também pagando um psicanalista, terapeuta, psicólogo, pastor, padre, qualquer coisa que nos ajude a morrer melhor e enfrentar essa saga, que só piora à medida que a idade avança.

Se a ciência pode ficcionar, quem dirá a arte. Assumir as ficções que tecem aquilo a que nos apegamos como real, implicar em assumir o labor envolvido no gesto de lembrar. Reunir os fragmentos soltos, traçar conexões, associações, agrupamentos, categorias. Fazer isso junto facilita o trabalho, mas também confronta as versões de onde se parte. Acordos são necessários para uma versão comum, que seja legitimada por mais de um. Assim, o verbo lembrar talvez devesse ser acompanhado também por elaborar e por criar.

Mas quando se parte para o âmbito de inscrever a memória, a situação se torna mais exigente. Como admitir esquecer quando se inscreve memória institucionalmente? O título da exposição Junho de 2013: cinco anos depois é sobre isso. Esquecer, elaborar, criar. Assumir os fragmentos em sua condição mesma. Assumir o conjunto dos fragmentos e seus subconjuntos como ficções, versões, possíveis ou não, fora do âmbito de disputa do real. Não se trata do real ou não. O real que acontece depois dos túneis que dividem a cidade do Rio de Janeiro é irreal na vida que se resume a surfar, fazer jantares para a alta sociedade e adquirir obras de arte para coleção particular. Soa como uma ficção que se pode acessar vez ou outra nos jornais quase filmes de drama.

Uma pequena história da arte aposta nos protagonistas de história nenhuma. Aposta em optar por esquecer, em não abranger o todo, em não universalizar as narrativas, em deslocar as polarizações entre isso ou aquilo para muitos. Muitos que podem ser bons e ruins, potentes e ridículos, dignos de memória e esquecimento. E que, provavelmente, não estarão nos livros didáticos. E, se esquecer é inevitável, que as opções sejam por lembrar dos que não serão lembrados pela grande história. O que é um gesto sem importância dentro das hierarquias pelas quais funcionamos. Pequenas história das artes são como os cacos de vidro que a artista Juliana Notari pisa na perfomance Symbebekos (2002 – 2011). Dói para a artista e causa horror a quem assiste. Sangram e deixam cicatrizes. Um gesto de violência sobre saber perder quando se impõe uma força contra algo forte, inabalável. Um faro apurado irá atrás das cicatrizes, sem pretender um fim, assumir um fragmento e só, obra em obras.

Obra em obras – Texto 1

Obra em obras – Texto 2

Obra em obras – Texto 3

Obra em obras – Texto 4

dani

 

DANIELE MACHADO é Historiadora da Arte (UFRJ) e Mestranda em Estudos Contemporâneos das Artes (UFF) onde desenvolve a dissertação “Construtivismo Latino-Americano na Modernidade Periférica: Método Destrutivo, Ruína em Construção”. É Curadora do Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica e Diretora Geral da Revista Desvio.

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s