Crítica semanal Ludimilla Fonseca

Notas Olfativas 02

Visiante na exposicao Aromatic Art Reconstructed In Search of Lost Scents_Foto Bert Brouwenstijn 2017
Visitante na exposição Aromatic Art (Re-) constructed: In Search of Lost Scents
Foto: Bert Brouwenstijn, 2017

A arte olfativa é uma “modalidade contemporânea de expressão” em que artistas envolvem (intencionalmente) um sentido muito singular em sua prática – o do cheiro. Não que as experiências envolvendo o olfato no campo das artes sejam recentes. Apenas pontuando que as experimentações nessa linha começam a ocorrer de maneira mais consciente e manifesta a partir dos marcos cronológicos do que identificamos como “contemporaneidade”. Em outras palavras, de certo, arte e odor se conectam desde o princípio da historiografia. Porém, o registro, a sistematização e o desenvolvimento de um léxico (além de um arcabouço teórico) que visa dar conta dessas experiências é muito recente.

Por meio de abordagens inovadoras e transdisciplinares, xs artistas estão investigando a dinâmica única desse sistema de percepção para indagar, provocar e tornar visível (de maneira que a “arte visual” não alcança), conhecimentos e qualidades sobre as relações entre humanos, natureza, cultura e sociedade. Há inúmeras obras provocativas explorando as conexões entre as complexidades dos cheiros, a percepção e a memória. Digo isso tudo para argumentar que a Arte Olfativa pode ser entendida como uma categoria artística importante e estimulante, que possui, inclusive, certa lógica de classificação. Mas isso é apenas para obedecer a um princípio academicista e hierarquizante da escrita sobre os fenômenos artísticos. Na verdade, basta dizer que se trata de arte. E assim, os debates sobre as forças legitimadoras é estendido ao campo das artes (onde deve se situar) e não fica orbitando as discussões rasas sobre subcategorias ou gêneros.

As proposições de artistas que estão motivadxs a se conectar com os narizes de seus/suas espectadores são muito diversificadas. Alguns se apoiam em pesquisas científicas, expandindo amplamente o entendimento sobre os fenômenos olfativos, introduzindo novas ideias sobre os cheiros como meio/mídia/suporte. Outrxs artistas desempenham papéis importantes nas investigações sensoriais, explorando os aspectos socioculturais dos odores e a percepção deles, desenvolvendo trabalhos que vão desde a criação de vastas bibliotecas e coleções, até experiências públicas com aromas, fragrâncias e matérias-primas orgânicas. Sendo assim, acredito que está na hora de a crítica e a academia irem além do “técnica mista/dimensões variáveis” para abordar estas experiências. Insisto, inclusive, no conceito de “experiência” (aqui utilizado sem nenhum rigor teórico) como contraponto à ideia de “obra/objeto”. Porque (assim como ocorre na arte relacional, na performance, etc.) ainda que possuam algum nível de fisicalidade dentro dos espaços expositivos, estamos falando em proposições artísticas que são efêmeras e só existem na presença de fruidorxs.

Prematuramente concluindo, acredito que o desenvolvimento de estudos sobre a arte olfativa pode contribuir para o crescimento do campo das artes, bem como para o próprio âmbito das investigações sobre os sentidos, já que viabiliza a exploração de aspectos variados da experiência humana, incluindo as dimensões biológicas, ideológicas, culturais e políticas da formação da consciência artística. A diversidade de áreas de pesquisa que as proposições olfativas englobam fazem delas um campo promissor de experimentação artística, curatorial e até mesmo educacional, conduzindo a uma nova dimensão crítica e histórica.

Peter de Cupere_Eau de Cacoa_Foto Marco Mertens, 2015
Peter de Cupere: “Eau de Cacoa”
Foto: Marco Mertens, 2015

 

ludmilla

LUDIMILLA FONSECA é comunicóloga e jornalista formada pela Universidade Federal de Juiz de Fora (MG). Paralelamente, trabalha como curadora e produtora independente de projetos artísticos. Mineira, atualmente, reside no Rio de Janeiro, se dedicando aos estudos curatoriais e de história da arte. Especializada em storytelling, suas principais áreas de interesse são: arte contemporânea brasileira, semiótica e cinema.

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s