Camila Vieira Crítica semanal

Sobre a repulsa à perenidade

O artigo de hoje vai ao encontro de uma linha de pensamento que me instigou a discutir um pouco sobre a Performance e a Modificação Corporal. Essa vontade surgiu de uma rememoração que fiz sobre a performance de Marcus Abranches, chamada “O Grito”, inspirada na pintura homônima de Munch, e de uma frase que ouvi há muito tempo atrás, e que infelizmente não conseguirei reproduzir, mas cujo mote é fazer pensar que a diferença de tratamento que a sociedade dispensa à barata, em detrimento à borboleta, ambas insetos, é calcada na estética. Digo isso porque a performance de Abranches, que assisti em São Paulo, no ano de 2016, foi desenvolvida segundo a estética da repulsa[1], e fala muito a respeito das dores do artista, enquanto um dançarino que sofre de paralisia cerebral, e da estranheza deste corpo contorcido pela movimentação involuntária dos músculos. A cena final da performance consiste suspensão deste corpo, porventura considerado “anti-estético”, pela pele, através de ganchos que flutuam o artista a mais ou menos dois metros do palco. Como o peso do corpo é todo suportado pela pele, ao fim do espetáculo o artista carregará as cicatrizes desta ação permanentemente, uma alusão, talvez, ao duro processo de se construir enquanto sujeito “ deficiente” numa sociedade de pessoas “esteticamente perfeitas”.

 Assisti a “O Grito” na mesma época que tomei contato com a linguagem da Body Art. Dentro da performance, conheci o trabalho de Priscilla Davanzo, artista brasileira que trabalha com modificação corporal e utiliza a tatuagem como um dos significantes das ações que realiza. Na obra “Cada janela é uma paisagem diferente”, Priscilla desenvolve, a partir da tatuagem, a tradição portuguesa da faiança[2], discutindo a memória tradicional, a diáspora, a imigração e a saudade. Essa projeção interna, contudo, através da tatuagem passa a ser comunicada ao exterior, de modo que toda a sociedade compartilhe, pelo menos visualmente, a carga emocional que os elementos impressos na pele supõem. Num trabalho mais antigo, As Vacas Comem Duas Vezes a Mesma Comida, 2000, Priscilla tatua manchas de vaca na pele, para “ser vaca para sempre”, pois, se apenas pintasse com tinta, essa sinalização, segundo Davanzo, teria um  caráter puramente  transitório.

Passados dois anos desse primeiro contato, e tendo conhecido também a obras de outros artistas, que não cabem aqui neste breve relato, penso que ainda são poucos os artistas que utilizam a tatuagem, a suspensão corporal e outras linguagens próprias da modificação corporal como base para o seu trabalho performático, justamente por causa do caráter transitório que historicamente este tipo de trabalho tem. Não concebo que exista uma barreira a atravessar, neste quesito, pelo motivo da individualidade que impregna a produção criativa de cada artista, contudo, talvez seja necessário discorrer um pouco mais sobre a repulsa que a perenidade causa na produção artística contemporânea, seja pelos materiais atualmente utilizados, seja pela fácil reprodutibilidade e difusão desta imagética, já tão saturada. A estética da perenidade, reflito, pode ser a estética mais repulsiva que se pode encontrar nos tempos atuais, onde tudo perece, num piscar de olhos.

[1] Cf. DANTO, Arthur C. O abuso da beleza: a estética e o conceito de arte; tradução Pedro Süssekind. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2015.

[2] A faiança – a técnica da cerâmica branca esmaltada da qual fazem parte os tradicionais azulejos portugueses – é uma das características mais típicas da cultura portuguesa e por sua vez, da cultura colonial no Brasil.

 

camila

 

CAMILA VIEIRA é formada em Arte: História, Crítica e Curadoria, pela PUC SP, e atua como arte-educadora em instituições culturais. Realiza pesquisas acerca da educação não-formal e de processos curatoriais inclusivos. É autora do livro “A crise da Arte segundo Mário Pedrosa”.

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