Carolina Lopes Crítica semanal

Apressado come cru II

ainda sobre este tema ansioso, me dei conta de que talvez haja mais a pensar sobre. além disso, há também a pressa de escrever um texto. um texto sobre algum assunto, que tenha a ver com arte. um texto, produto de um parecer, uma impressão. alguma reflexão que se tenha tecido sobre o assunto escolhido. no texto anterior, falei sobre a produção artística, sobre as repostas rápidas, sobre o tanto de demandas que se acumulam nos aplicativos todos, dos nossos celulares. pensando um pouco mais, vem também a questão do tempo para a produção de um pensamento. no mesmo passo em que nascem as coisas, nasce com elas, a demanda de uma opinião. a necessidade de uma reflexão tão meteórica quanto o surgimento de qualquer trabalho de arte, qualquer exposição, qualquer acontecimento. no mesmo baque de susto, com que se vai pra trás, a volta já deve vir recheada de uma resposta a algo como: o que você acha disso? imediatamente. dois minutos pra pensar, e o assunto já foi considerado, discutido, julgado, definido e zé fini! talvez, uma confusão entre reflexão e pensamento, e julgamento, acabe provocando aquilo que de fato sobra da extensa produção de opiniões: nada. não sei ainda, quem é que pede tão apressadamente, tanta opinião. se é mercado, se é o ritmo facebookiano, ou qualquer outra coisa que cause a sensação de que cada indivíduo precisa opinar sobre cada assunto que surge, imediatamente. diante da requisição de posicionamento rápido, pode haver também a tendência de tomá-la de um só lado. não é mais processualmente que se desenvolve a consideração a respeito de algo. então, são panelas limpas e comidas cruas que se cozinham. assim como, provas rápidas e gosto raso. a ideia aqui é pensar, de que modo será possível, mesmo levando em conta o ritmo do tempo de agora, aguardar minimamente o amadurecimento dos contatos. é preciso alguma conversa, uns encontros, um giro em torno, para que assim, a quem interessar, possa tecer, com ponto mais firme, uma crítica sobre algo. economia de julgamentos e de opiniões soltas é o ponto. é claro que não estou aqui inocentemente sendo nostálgica e saudosista a respeito do tempo. mas é também possível, ainda que na escala micro, esgarçá-lo um pouco para o parecer de qualquer coisa.

mais uma vez, é com pressa que este texto chega.

 

CAROLINA LOPES

CAROLINA LOPES, 32 anos, estuda História da Arte na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Fotógrafa e designer, também trabalhou como bolsista do professor Marcelo Campos na Casa França-Brasil, onde esteve mais perto das práticas curatoriais e artísticas. Nascida e criada em São Gonçalo, teve acesso tardio aos museus, cinemas, e espaços culturais; tendo sido completamente envolvida pelo universo da arte desde o primeiro contato.

 

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