Candé Crítica semanal

Quilombo de Branco

Estamos em agosto, eu sei, e ainda nem viramos a Primavera do Hemisfério Sul e as Instituições de Arte Pública Brasileiras correm para agendar em seu calendário eventos que tangenciem a questão racial óbvia brasileira em termos palatáveis às elites brancas ocupantes da gestão dos espaços de arte tradicional. O corre-corre está grande, fica evidente a falta de interesse geral pela questão e o desconforto que a presença negra produz nos gestores. É inevitável que o simples “teste do pescoço” é capaz de ponderar: as equipes de profissionais da arte ainda estão longe de serem racialmente paritárias. É consenso que nestas exposições a presença de artistas negros é obrigatória, porém… a mesma lógica não acessa a curadoria.

O panorama não é de desastre. Exposições como Histórias Afro-Atlânticas no MASP com curadoria de Ayrson Heráclito, artista e pensador protagonista da arte nacional, e Hélio Menezes, antropólogo com inserção ascendente no mundo da arte. Ambos são negros, com pesquisa e vivência em cultura brasileira, permitindo um amplo espectro de proposições curatoriais redefinindo narrativas que bloqueiam em visualidade e história o Protagonismo Negro na Cultura Ocidental. A mostra ainda é compartilhada com mais dois curadores e uma curadora, todos brancos e com o velho perfil curatorial brasileiro com formações em antropologia e filosofia com inserções artísticas. O tom antropológico permite uma liga entre trabalhos de arte produzida através dos sistemas de escuta, comparações de signos culturais africanos e suas transformações com a diáspora, além das narrativas políticas sobre resistência através das lutas preservadoras de símbolos. Africanidade como Cultura de Culturas, criada com originalidade, sangue e força, durante séculos de trânsito africano pelo Oceano Atlântico e suas invasões culturais fundamentais no continente. Organiza trabalhos numa abordagem pós-moderna que cria uma rede de referências sem juízos cronológicos.

Já no Rio de Janeiro temos o “Quilombo do Rosário”, exposição curatoriada por Roberto Conduru, talvez o mais celebrado curador branco da arte negra brasileira. E ele tem um enorme poder de articulação com movimentos negros contemporâneos. Contou com a participação de quilombos urbanos e grupos de mulheres periféricas. É uma exposição sobre Resistência Negra focada no embate entre grupos negros da Diáspora Africana no Brasil e os processos de Resistência Descolonial. Os trabalhos de Rosana Paulino, Tom Bezerra, Ateliê gaia, Sônia Gomes são relacionados aos do Bispo do Rosário e demais artistas da Colônia Juliano Moreira. Ação que cria a pretensa voz uníssona contra opressões sistêmicas ao negro brasileiro típica dos espectadores externos.

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A complexidade de Histórias afro-Atlânticas, assim como número de obras, espaço expositivo e obras, é cinco vezes maior que a do Quilombo do Rosário. O que permite uma representação robusta da complexidade de relações que fundamenta conflitos contemporâneos e impõe ao mundo da arte uma total reconstrução. Certamente longe do necessário para produzirmos uma narrativa que entende profundamente as relações entre Corpo, Arte e Cultura, o que talvez seja a maior debilidade da macro-exposição. Uma limitação muito comum nas curadorias de pessoas brancas sobre arte negra, mas que não se limita a elas. As relações de pesquisa e identidade permitidos pela Negritude estão tangenciais. O que apenas os corpos negros podem ver em nosso contexto e onde esta construção impactou todo o Conhecimento e a Arte? Porém o protagonismo negro na Arte é bem compreendido mesmo que a prioridade dos trabalhos ainda seja a visualidade das obras ou seu conteúdo narrativo antropológico. Já em Quilombo do Rosário, dadas as devidas considerações à proporção e intenção de cada exposição citada, Conduru está sozinho na “casa grande” da curadoria brasileira. Cercado de negros e negras, assume para si a posição de organizador da História da Arte Afrobrasileira delimitando quem é ou não fundamental, como e qual História contar. Uma História que não é sua. Um sórdido panorama da Arte Brasileira. Da antropologia onde Pierre Verger vira o principal narrador da Cultura Iorubana no Brasil à Arte com Conduru narrando como a luta negra se deu no país. Mas qual “sinhozinho” abandonou voluntariamente seu espaço privilegiado em toda a nossa História? Como sempre, tomaremos à força.

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Palavras surgiram tanto para transmitir o que pensamos como para dissimular quem somos. Nestes termos, apesar do trabalho sincero de todos os artistas expositores, Conduru torna “Quilombo” um termo esvaziado, incompreendido, ou intencionalmente apropriado. O termo, referência mundial da organização negra brasileira, é onde negros e negras do passado e presente organizavam sua própria liberdade longe dos arbítrios do racismo institucional. Apesar de brancos serem aceitos nos Quilombos, não há relatos de líderes brancos da libertação negra. O que podemos aprender com isso?

No conjunto da Arte Negra Brasileira, sob vário aspectos, ainda precisamos aprender o Be-a-bá.

 

CANDÉ COSTA

CANDÉ é estudante de História da Arte e carioca da Zona Norte da cidade. Filho da Babilônia, transita por vários movimentos urbanos contemporâneos. Artista visual, curador da @Africanizze, coordenador do afoxé 2.0 da UFRJ e mochileiro old school.
Instagram @Africanizze | Facebook – Candé Costa http://www.cargocollective.com/candecosta

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