Crítica semanal Daniele Machado

Como fazer memória?

A memória se faz assim: passo 1) qual o objeto / passo 2) pesquisar fontes primárias, secundárias e terciárias como textuais, imagéticas, orais e audiovisuais / passo 3) analisar e interpretar o material reunido a partir de métodos adequados / passo 4) caso vá fazer uma exposição, a partir do material levantado, o curador irá selecionar um conjunto que construa o discurso que irá assinar sobre o objeto / passo 5) o material será organizado no espaço nas paredes, pendurados com aço, nylon no teto, de uma parede a outra em móveis, vitrines. Os adesivos apresentarão os textos do curador e dos pesquisadores. A iluminação finalizará o ambiente. As etiquetas de legenda irão legendar o autor, a data de realização, o dono, as dimensões e o material. Na abertura o ambiente estará impecável, com a presença de especialistas capazes de explicar tal conjunto reunido, o como foi reunido e também os conteúdos separadamente. O especialista mais especial é o crítico, que terá o aval de dizer se aquilo merece ser visitado ou não e também se vale à pena os colecionadores adquirirem os trabalhos expostos ou se os galeristas devem representar os artistas. Por fim, o público participa depois da abertura gerando os números que demonstrarão o sucesso ou não de todo o trabalho e, especialmente, justificando o orçamento investido pelos patrocinadores. Por fim, o objeto que gera tanto movimento não pode ser qualquer um, muito menos, indefinido.

Como democratizar as relações em uma instituição pública de arte?

Dessa pergunta e da que está no título deste texto partimos em março deste ano para investigar desdobramentos, sem ter a menor previsão de um resultado e sem objetivar uma resposta que nos salvasse de nós mesmos.

No time da curadoria começamos eu, João Paulo Ovídio e Thatiana Napolitano. Depois chegaram Camila Vieira, Jessica Kloosterman e Leticia Guerra. Nesse desejo de investigar o próprio ato de fazer memória, pensamos que ter artistas junto a nós era fundamental. Mais ainda era também cumprir um ponto relevante na atual Curadoria do CMAHO: participar ativamente do apoio a artistas de trajetória jovem, não apenas dando uma oportunidade de visibilidade do seu trabalho, mas realizar isso de forma contínua. Decidimos então convidar quatro artistas que participaram do I Pega: Encontros dos Estudantes das Graduações em Artes do Estado do Rio de Janeiro, que ocorreu no ano passado: Analu Zimmer, Antonio Gonzaga Amador, Nicolle Crys e Rodrigo Pinheiro.

A proposta era quinzenalmente se encontrar no térreo do CMAHO, curadores e artistas, para pensar o projeto. Os encontros abertos, com o público não apenas podendo assistir como participar. A montagem também era aberta, foi acontecendo ao longo desses meses. E, entre maio e agosto, a cada primeiro sábado do mês, um dos artistas realizaram oficinas que apresentavam seu processo de trabalho e pesquisa, ainda não concluídos.

A exposição teve sua primeira abertura em março. Abriu vazia. Pouco a pouco o espaço foi sendo preenchido. Primeiro como ateliê. Depois com os trabalhos finalizados. Curatorialmente, não sabíamos exatamente o que seria curado enquanto objetos. Ao longo dos encontros nos debatemos em torno de pensar conteúdo e formas mais afetivos e convidativos ao público. Repensamos materiais e formas de montagem, negociamos os espaços a medida que cada trabalho foi ficando pronto, expomos a poeira envolvida na montagem e todo o não glamour dessa realização. Todas as dúvidas estavam ali, para se pensar junto.

Pensar curadoria junto, com os artistas presentes e ativos, sabendo que tudo poderia mudar em 15 dias ou quando mais um trabalho fosse concluído. Talvez seja mais democrático. Tentamos…

Esse processo extremamente desafiador chega ao fim este sábado. Você está mais do que convidado! 😉

dani

 

DANIELE MACHADO é Historiadora da Arte (UFRJ) e Mestranda em Estudos Contemporâneos das Artes (UFF) onde desenvolve a dissertação O método destrutivo e as artes construtivas latino-americanas, onde investiga relações de memória, trauma e arte no deslocamento da materialidade no relevo da cidade do Rio de Janeiro, a partir de destruições, em especial, incêndio de 1978 no MAM-RJ. É Curadora do Centro Municipal de Arte Hélio Oiticica e Diretora Geral da Revista Desvio.

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