Crítica semanal Ludimilla Fonseca

Olha ela! Arte e visibilidade

29 de agosto é o Dia Nacional da Visibilidade Lésbica. Trata-se de um marco de memória, resistência e luta para as mulheres lésbicas e bissexuais e que celebra a realização do 1º Seminário Nacional de Lésbicas (SENALE), que aconteceu em 1996. Em uma sociedade heteronormativa e misógina, o apagamento da identidade lésbica é uma realidade que se apresenta de diversas maneiras, que vão desde a fetichização/objetificação até a negligência em relação aos direitos reprodutivos e sexuais, além do feminicídio – apenas para resumir.

Quando invisibilizamos algo, afirmamos que aquela demanda, aquela pessoa, aquela experiência não é importante e digna de atenção. A invisibilidade nega toda e qualquer possibilidade de existência. E aquilo que não existe, não tem direitos. Sendo assim, é essencial que a voz das mulheres lésbicas e bissexuais seja amplificada, para que suas pautas e preocupações sejam ouvidas e que sua existência seja reconhecida e valorizada.

No campo das artes não é diferente. Porém, ao invés de escrever criticamente sobre os inúmeros nomes apagados da historiografia tradicional, resolvi fazer uma pequena lista de artistas mulheres cujos trabalhos dialogam com o universo lésbico e bissexual e com questões de identidade de gênero, sexualidade e feminismo. Não foram aplicados critérios objetivos: a lista é espontânea, baseada em afinidades e na melhor das intenções – que é tornar visível (sem entrar no mérito que, de antemão, algumas artistas já têm mais visibilidade que outras).

Rita Moreira

Rita Moreira e sua parceira Norma Pontes se mudaram do Brasil para Nova York nos anos 1970, quando o movimento LGBT e a segunda onda feminista avançavam nos EUA. Com uma câmera na mão e entrevistas espontâneas nas ruas, elas são consideradas pioneiras no gênero de documentários independentes. Rita não se reconhece como cineasta: “eu faço vídeos”. As temáticas sociais como política, racismo, questões de gênero e sexualidade sempre foram o foco do seu trabalho. Um dos maiores destaques na sua carreira é “Temporada de Caça”. O vídeo recebeu mais de 12 prêmios e revela a violência e os assassinatos de homossexuais em São Paulo e Rio de Janeiro nos anos 80. No Youtube dá para assistir tudo:

Lesbian Mother (1972) https://www.youtube.com/watch?v=N76wudd_IP4

She has a Beard (1975) https://www.youtube.com/watch?v=rL92Nja4C_M&t=273s

Temporada de caça (1988) https://www.youtube.com/watch?v=rjan_Yd0C5g

The Apartment (1975) https://www.youtube.com/watch?v=hFjhvxQXji8

Caminhada Lésbica por Marielle (2018)

 https://www.youtube.com/watch?v=IfCpoVkpsbU

Rita Moreira

 

Virginia de Medeiros

O trabalho da artista baiana converge de estratégias documentais, para ir além do testemunho, questionando os limites entre realidade e ficção. Ela lida com três pressupostos comuns aos campos da arte e do documentário: o deslocamento, a participação e a fabulação. Adaptando imagens documentais para usos subjetivos, pessoais e conceituais, propiciando a revisão dos modos de leitura e representação da realidade e da alteridade. Virginia de Medeiros orbita o universo LBT de maneira, ao mesmo tempo, muito pessoal e política.

Uma de suas obras mais conhecidas é “Sergio e Simone” (2009), que participou da 31ª  Bienal de São Paulo (2014) e foi premiada no 18º Festival de Arte Contemporânea Videobrasil. O trabalho retrata Simone, uma travesti que após uma overdose, volta para casa dos pais, retoma o seu nome de batismo Sérgio e se considera uma das últimas pessoas envidas por Deus para salvar a humanidade.

Virginia de Medeiros

 

Bia Leite

A jovem artista é de Fortaleza, mas vive e trabalha em Brasília. Atua em diferentes meios como pintura, gravura, desenho e cinema, abordando violência, conflito, amor, gênero, sexualidade, queer. Um dos trabalhos de maior repercussão de Bia Leite até agora é a série de pinturas “Criança Viada”, que está exposta na mostra “Queermuseu” e foi alvo de vários ataques. Sua primeira exposição individual foi na Galeria Transarte (SP) https://transarte.net/.

Bia Leite

 

Camila Soato

 A artista aborda a discussão sobre gênero e questionamentos acerca do status da pintura na era da apropriação de imagens. Vencedor do prêmio de Melhor Exposição Prêmio PIPA Voto Popular (2013), o trabalho de Soato força a convivência da abstração e da figuração nas telas com o propósito de romper qualquer hierarquia que possa haver entre elas. O mesmo rompimento é perseguido nas questões de gênero, constituindo uma obra bastante política. Sua mais recente individual, intitulada “Caviar é uma ova!” foi na Galeria Zipper http://www.zippergaleria.com.br/en/ (SP) no ano passado.

Camila Soato

 

Jade Marra 

A artista mineira desenvolve sua pesquisa visual a partir das relações estabelecidas em seu universo pessoal. Seu trabalho testemunha a intimidade, por meio da relação entre corpos e seus afetos; além de disparar reflexões sobre gênero e homoafetividade. Marra fez sua primeira individual no começo deste na Galeria de Arte Copasa (MG).

 

Jade Marra

 

ludmilla

LUDIMILLA FONSECA é comunicóloga e jornalista formada pela Universidade Federal de Juiz de Fora (MG). Paralelamente, trabalha como curadora e produtora independente de projetos artísticos. Mineira, atualmente, reside no Rio de Janeiro, se dedicando aos estudos curatoriais e de história da arte. Especializada em storytelling, suas principais áreas de interesse são: arte contemporânea brasileira, semiótica e cinema.

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